Esportes

Pan-2019: Festa das Américas


| Tempo de leitura: 11 min

Susana Vera/Reuters
Estadio Nacional de Lima, que recebe hoje a festa na cerimônia de abertura oficial da competição

Um grande show marcará a abertura oficial dos Jogos Pan-Americanos de Lima, hoje, a partir das 20h (de Brasília), no Estádio Nacional. A cerimônia vai fazer uma homenagem ao Peru usando como pano de fundo o relevo topográfico do país. A festa deve ter muitas luzes e efeitos com fogos de artifício. O estádio deverá receber cerca de 50 mil espectadores e o Comitê Organizador do Pan projeta que mais de 400 milhões de pessoas pelo mundo vão acompanhar o evento. 

A promessa é de muita música e cores. O mexicano Francisco Negrin assina a direção criativa da festa, que terá cerca de duas horas e 40 minutos de duração. "Tenho a responsabilidade e me dá um frio na barriga ter de apresentar o Peru ao mundo e aos peruanos, ainda mais não sendo deste país. Tivemos a ajuda do pessoal de criação, que foram se juntando à equipe e acredito que tivemos êxito em contar aquilo que o povo local gostaria de dizer sobre seu país", disse Negrin

No total, 1.933 pessoas vão participar do show, entre eles 1.860 voluntários, que passaram por 280 horas de ensaio. A equipe de produção tem 230 membros de 17 nacionalidades diferentes. "Será uma grande oportunidade para vender o Peru da melhor maneira, porque vamos passar por toda a história do nosso país", destacou Carlos Neuhaus, presidente do Comitê Organizador do Pan de Lima-2019

O evento terá a presença do presidente do Peru, Martín Vizcarra, do presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, do presidente da PanAm Sports, Neven Ilic, e do Comitê Organizador Lima-2019, Carlos Neuhaus, entre outras autoridades. Haverá momento de cerimonial e pequenos discursos entre as apresentações.

Os 41 países vão desfilar com suas delegações, tendo o porta-bandeira à frente, e o espetáculo vai mostrar imagens icônicas de cada nação participante. Como sede, o Peru será a última equipe a entrar no Estádio Nacional.

Entre os nomes de destaque do evento estão o porto-riquenho Luis Fonsi, um dos autores de "Despacito", e o tenor peruano Juan Diego Flórez. Fonsi terá apresentação que deve contar com mais de mil participantes, entre músicos, bailarinos e acrobatas. "Vai ser uma noite muito especial com pessoas que estão há muito tempo trabalhando em todos os detalhes musicais e algumas surpresas. Vai ser uma noite muito mágica", avaliou o músico em entrevista coletiva.

MAIS DE 6 MIL ATLETAS

Os Jogos Pan-Americanos de 2019 vão reunir 6.680 atletas de 41 nações e territórios de todo continente americano, com as competições sendo disputadas em 14 distritos de Lima e de Callao, na região metropolitana da capital. São 39 esportes e 61 modalidades, 22 delas classificatórias para as Olimpíadas de Tóquio, que ocorrem no próximo ano.

Mais de 100 medalhistas olímpicos estarão representando seus países. Estrelas como o cubano Mijaín López, medalha de ouro na luta greco-romana nas três últimas edições olímpicas, o nadador estadunidense Nathan Adrian, que coleciona oito pódios em Olimpíadas (com cinco ouros) e a velocista jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce, com três títulos e cinco pódios na pista de atletismo, vão dar o tom do evento.

Pelo Brasil serão seis campeões olímpicos nesta seleta lista: Arthur Zanetti (ginástica artística), Martine Grael e Kahena Kunze (vela), Thiago Braz (atletismo), Rafaela Silva (judô) e Eder (vôlei). Isso sem contar outros atletas nacionais que foram ao pódio, como Isaquias Queiroz e Erlon Souza (canoagem velocidade), Arthur Nory (ginástica artística), Maicon Andrade (taekwondo) e Mayra Aguiar (judô).

"A gente está indo para dar o melhor nessa competição. Não é nosso evento principal deste ano, mas é uma competição muito importante para a gente se testar em um evento grande, como é na Olimpíada, mesmo estando em uma Vila separada de Lima. Sabemos que o importante é aprender o máximo possível", explicou Kahena.

A lista de brasileiros medalhistas só não é maior porque as equipes masculinas e feminina de vôlei não vão ter em Lima sua força máxima, pois o foco é o Pré-Olímpico para Tóquio, e porque a seleção feminina de futebol não vai participar por causa de critérios da Conmebol. Até por isso, as jogadoras do Brasil não poderão defender o título conquistado quatro anos atrás no Pan de Toronto.

BRILHO E RESPEITO

Para os organizadores, a presença desses talentos brasileiros aumenta o brilho do evento. "Eu gosto disso e vejo como uma forma de respeito ao país anfitrião. O Brasil manda seus melhores atletas porque também acredita que fizemos um bom trabalho. Para nós, peruanos, receber os melhores atletas é como um prêmio pelo que estamos fazendo. Isso permite com que os torcedores fiquem mais entusiasmados", disse Carlos Neuhaus.

Apesar de ter a participação dos Estados Unidos, a maior potência olímpica do planeta, o Pan não consegue mais atrair os principais atletas daquele país. No início, a competição era usada como preparação para as Olimpíadas e os melhores sempre participavam. Mas a partir da década de 1970, ainda mais depois da proliferação de diversos mundiais de modalidades, os estadunidenses passaram a tratar o Pan como uma competição para jovens promessas, salvo algumas exceções.

Peru recebe Pan com alívio após crise e em clima de patriotismo

O Peru dá início oficialmente ao maior evento esportivo da sua história sob clima de alívio e patriotismo. O alívio vem após uma preparação tensa. Sob a sombra da Operação Lava Jato, o país viveu uma série de escândalos políticos nos últimos anos, com direito a renúncia e prisões de ex-presidentes, além de um caso de suicídio, do ex-mandatário Alan García.

Há pouco mais de dois anos, Lima não parecia estar prestes a sediar o evento. Segundo o presidente da Panam Sports (Organização Desportiva Pan-Americana), o chileno Neven Ilic, não havia praticamente nada pronto quando ele assumiu, em abril de 2017.

Um mês antes, após fortes chuvas que atingiram o país, o congresso chegou a discutir um projeto de lei para cancelar a realização dos Jogos, mas o governo conseguiu levar a organização adiante. Uma medida para evitar que as licitações despertassem novas desconfianças foi submetê-las à supervisão estrangeira por meio de um acordo com o governo britânico. "Sendo sincero, não imaginei o resultado que estou vendo aqui nem no melhor dos meus sonhos", afirmou Ilic.

A organização conseguiu entregar todas as arenas a tempo, mas obras de acabamento estavam sendo feitas em locais de competição às vésperas da abertura.

 A expectativa é que o tráfego intenso da capital, outra preocupação dos organizadores, diminua com a instalação de faixas exclusivas para veículos credenciados e o início de um feriadão que começa hoje e vai até a próxima quarta.

As "Fiestas Patrias" celebram a independência do país no dia 28, mas não se limitam a essa data. Durante o mês de julho, grande parte dos peruanos estende a bandeira nacional nas janelas ou em frente às suas casas. Quem não exibe o símbolo ou o faz com objetos em más condições pode levar uma multa, cujo valor varia conforme a localidade.

Por imposição ou patriotismo, o vermelho e branco é onipresente em Lima. As bandeiras se juntam às várias faixas que fazem referência aos Jogos e estão penduradas em postes, de forma que ninguém que chega à cidade tem dúvidas de que Lima vive um momento único.

COB sonha com 2º lugar

Avaliação dos dirigentes do Brasil aponta vice no Pan-Americano como cenário ideal, mas admite incógnita sobre previsão de resultados

A pergunta de um milhão de dólares no Comitê Olímpico do Brasil (COB) é sobre quantas medalhas o País vai conquistar nos Jogos Pan-Americanos de Lima. E a resposta não existe, não por mistério dos profissionais da entidade, mas por causa de uma especificidade do evento: só momentos antes da competição é que se tem um panorama de como estão as potências adversárias, principalmente Canadá e Estados Unidos.

"Os Jogos Pan-Americanos, na nossa avaliação, mostram uma dificuldade a mais para você poder prever realmente o nível da disputa e o tipo de atleta que você vai encontrar aqui. Nos Jogos Olímpicos você sabe que estará lá o melhor dos melhores, o time A, só não estará lá alguém que se machucou ou foi pego em algum tipo de controle de dopagem. No Pan, na realidade, só descobre mesmo quem você vai enfrentar com certeza no Congresso Técnico", explicou Jorge Bichara, diretor de esportes do COB.

Até por isso, ele não consegue precisar em quantas modalidades o Brasil vai subir ao pódio durante o Pan. Em cada uma delas, ele vai sentar com o chefe de equipe para conversar após a realização de cada um dos Congressos Técnicos (cada esporte tem o seu). "Aí realmente vamos definir em que nível a competição vai acontecer, olhando também como nossa equipe está, pois sempre tem uma lesão de última hora, uma escalação diferente. Então vamos fechar essa previsão só depois dessas reuniões, que são contínuas", avisou o dirigente.

O sonho seria conquistar uma segunda posição no quadro de medalhas, algo até impensável considerando-se a força do Canadá. No Pan de 1963, em São Paulo, o Brasil obteve a vice-liderança geral, atrás apenas dos Estados Unidos. Novamente em casa, os atletas nacionais obtiveram a melhor quantidade de medalhas da história, quando obteve 52 de ouro e 157 pódios no Pan do Rio, em 2007.

"A gente avaliou isso internamente. Analisamos os últimos quatro Jogos Pan-Americanos e temos mantido sempre uma posição de terceiro. O fiel dessa balança é o Canadá, que é a maior incógnita disso, pois nas últimas quatro edições ele foi de segundo a quinto, então depende de como vem com seu time. Os Estados Unidos têm uma tradição e vão focar nas modalidades que têm disputa de vaga olímpica. Temos um potencial de fazer uma apresentação muito boa. Será a melhor da história? É difícil prever isso", afirmou Bichara.

Entre as modalidades que podem conquistar no Pan a vaga olímpica, as maiores chances são do handebol, tanto no masculino quanto no feminino. O hipismo tem chance e o polo aquático e o tênis de mesa podem surpreender.

Brasil terá pela 1ª vez dupla de porta-bandeiras

Pela primeira vez o Brasil terá nos Jogos Pan-Americanos uma mulher como porta-bandeira. Ou melhor, duas. O Comitê Olímpico do Brasil (COB) escolheu a dupla de velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze para ter essa honraria na cerimônia de abertura de hoje, quando a delegação entrará junto com as outras 40 nações no campo do Estádio Nacional de Lima, no Peru. "É uma honra muito grande e estamos felizes com essa indicação. É gratificante poder carregar o esforço das mulheres e dos atletas que estão representado o Brasil", disse Kahena. "Não faria sentido não estar as duas, pois conquistamos tudo juntas. Ser dupla é muito significativo", completou Martine. O COB precisou fazer um pedido especial para a PanAm Sports, para que fosse liberada a presença de uma dupla, algo muito raro nas cerimônias. O primeiro porta-bandeira do Brasil na história do Pan foi Roberto Chap Chap, do lançamento de martelo. Coube a ele ter essa função em 1963.

De olho em Tóquio-2020

Há quatro anos, o Brasil foi aos Jogos Pan-Americanos de Toronto com meta definida: encerrar a competição entre os três maiores medalhistas do continente. A equipe nacional alcançou o objetivo, terminando atrás de Estados Unidos e Canadá. Agora, o Time Brasil vai ao Pan de Lima, que tem início oficial hoje, com olhar voltado não para as Américas, mas para o Japão. A ideia é aproveitar a competição no Peru para conquistar o máximo possível de vagas para os Jogos Olímpicos de Tóquio, marcados para 2020.

Os Jogos Pan-Americanos de Lima não são a principal disputa esportiva do ano para muitas modalidades - tanto que os Estados Unidos tradicionalmente enviam um "Time B" -, mas em algumas delas são um bom caminho para obter a classificação para as Olimpíadas. É isso que o Comitê Olímpico do Brasil (COB) mira.

"A meta do COB para o Pan é classificação olímpica. Estamos atrás de vagas para os Jogos em algumas modalidades, de forma direta ou através de benefícios que uma boa colocação no Pan pode trazer", disse Jorge Bichara, diretor de Esportes do comitê.

Em 2016, o Time Brasil teve sua maior equipe na história dos Jogos, com 465 atletas. O número, porém, foi bem acima do que tradicionalmente a equipe nacional leva para uma edição de Olimpíadas e isso não vai se repetir no ano que vem.

"Esse número de participantes que o Brasil teve nos Jogos do Rio não vai ser superado nas próximas edições dos Jogos Olímpicos. A gente tinha vaga garantida até em esportes em que o Brasil não tem tradição", explica Bichara. "Devemos retomar o patamar (das edições anteriores), que deve ficar entre 250 e 300 atletas. Os esportes coletivos têm peso, e dentro do Pan as classificações do handebol e do polo aquático vão ter impacto", aponta o dirigente.

Os dois esportes dão apenas uma vaga para Tóquio e a tendência é de briga dura. "No handebol, a gente tem duelos interessantes e basicamente com os mesmos países. O feminino disputa vaga com Argentina e Cuba, e tem um pouco mais de favoritismo do que o masculino", avalia o diretor do COB. "(Entre os homens) Há disputa dura com Argentina e Cuba."

A vaga no polo aquático é vista como mais difícil. "O masculino tem nos EUA e Canadá seus rivais. No feminino, as americanas já estão classificadas porque venceram o Mundial, mas vão ao Pan com um time forte. A vaga, então, deve ser pelo segundo lugar, entre Canadá, Cuba e Brasil, mais abaixo", pondera. O País ainda vai usar Lima como ponte para Tóquio no hipismo.

Comentários

Comentários