A mentira e o boato sempre existiram e são tão antigos quanto a civilização. A diferença é que agora a mentira é midiática, de amplo alcance, potencializada pelo mundo digital, em que cada cidadão é emissor ativo de informações e não mais receptor passivo. E ganhou um nome sofisticado: fake news.
É muito bom que cada um de nós possa se comunicar de forma tão eficiente, rápida, livre e multilateral. O problema não é a tecnologia, mas nós mesmos e o que estamos fazendo com a liberdade de nos expressarmos tão amplamente.
A mentira em canais digitais passou a ser uma arma letal em muitas situações, diferentemente de tempos passados, quando era propagada ao pé d'ouvido, em pequenos grupos de afinidades e, no máximo, causava uma briga de vizinhos ou entre colegas de trabalho.
Vivemos, hoje em dia, o fenômeno do surgimento de informações polarizadas, dirigidas e construídas de acordo com interesses muito específicos e, principalmente, sem nexo com a realidade, com o fato real, que visam apenas atender às expectativas de confirmação de convicções dos públicos que gravitam em seu entorno. E as redes sociais se tornaram plataformas perfeitas para essa prática.
Não que não haja mentira em mídias tradicionais também, mas estas são controladas por poucos e sabemos a quem responsabilizar. As redes sociais são (in) controladas por todos os que nela estão e sujeita aos humores dos donos das gigantes das telecomunicações.
Colabora enormemente para este terreno fértil das inverdades destrutivas de reputações a descrença em que se encontram as instituições tradicionais no mundo real, numa era em que as pessoas se individualizam enormemente, após o caráter público e coletivo dos ambientes onde vivemos perder força e respeitabilidade por parte das pessoas.
Com os sistemas sociais e econômicos dando claros e evidentes sinais de esgotamento, somos impelidos, individualmente, a sermos os melhores, os mais produtivos, mais espertos, os mais 'vivos', importando somente o resultado, o número de curtidas no que eu publico, as likes, page views etc
Porém, muitas vezes nos esquecemos de que somos seres coletivos, necessitamos uns dos outros para encontrar uma convivência baseada na tolerância, consensos e pactos que beneficiem a todos.
Se não redefinirmos os sistemas políticos e econômicos e o nosso modo estúpido de agir com rapidez, será o caos.
O autor é diretor de redação do Jornal
da Cidade de Bauru