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'Mariana foi Davi contra Golias'

RAFAEL DE PAULA
| Tempo de leitura: 2 min

Capixaba de 77 anos, dom Geraldo Lyrio Rocha nasceu em Fundão. Mas foi em Minas Gerais que ele presenciou uma das maiores tragédias humanas. Viu de perto, em 2015, o sofrimento da população de Marina, atingida pelos rejeitos de minério. Era arcebispo daquele município e conviveu com o sofrimento das pessoas. Aposentou-se no ano passado, mas o vigor espiritual segue forte.

Antes, em 2007, ocupou a cadeira de presidente da Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB). Participou de diversos sínodos da Igreja, em Roma, e acumulou a função de vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-americano (Celan). Dom Geraldo esteve em Agudos (13 quilômetros de Bauru), recentemente, para o retiro anual do clero da Diocese de Bauru, com o bispo dom Rubens Sevilla.

Confira, a seguir, entrevista concedida ao JC, no Seminário Santo Antônio.

JC: Qual a importância desse retiro, aqui em Agudos?

Dom Geraldo Lyrio: Uma oportunidade para que possamos reavivar as motivações profundas e belas que nos levaram ao sacerdócio.

JC: O senhor está aposentado, mas continua atuante?

Dom Geraldo: Terminei a função de direção de uma diocese, mas ainda sou um bispo. Somos sempre responsáveis pelo anúncio das obras de Deus, pelo resto da vida.

JC: O senhor era arcebispo de Mariana no rompimento da barragem. Como foi?

Dom Geraldo: Vi tudo com muita tristeza. Vejo, agora, tudo com muita decepção. Vi o povo sofrendo em uma tragédia de dimensões incalculáveis, embora Brumadinho tenha um número maior de mortos. A minha decepção é que tudo o que foi feito até agora é insignificante.

JC: O que faltou?

Dom Geraldo: Estão por trás de tudo isso a força do poder econômico e a sede pelo lucro. Vale qualquer coisa, mesmo que o povo morra. A mola mestra, infelizmente, de uma sociedade capitalista mal organizada como nossa é a sede desenfreada pelo lucro e pelo poder absoluto. Mariana é luta de Davi contra Golias, tamanha a desigualdade.

JC: E qual a política da Igreja nesse contexto?

Dom Geraldo: É a postura de Jesus e que devemos ter sempre essa fidelidade. Ele sempre se colocou do lado dos pequenos, excluídos e dos desprezados pela sociedade.

JC: O poder econômico, às vezes, bate também na porta da igreja. Como lidar?

Dom Geraldo: Continuar do lado dos pequenos. Essa é a posição em todos os tempos. Se não for assim, a Igreja se distancia da proposta do próprio Senhor. A Igreja somos nós e estamos expostos às mesmas tentações, fraquezas e quedas. "Quem está em pé, cuide para que não caia", diz o apóstolo Paulo.

JC: O senhor esteve ao lado de muitos papas. Qual deles tem mais a sua admiração?

Dom Geraldo: Deus concede à Igreja o papa que ela precisa para o momento. Acompanhei o papa Paulo VI. Pude ver de perto a atuação dele no Concílio Vaticano II. Posteriormente, fui nomeado bispo pelo papa João Paulo II, que tinha uma capacidade de comunicação fantástica. Em seguida, recebi no Brasil o papa Bento XVI, uma pessoa com uma inteligência prodigiosa. Cada um tem sua riqueza.

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