Com tanta gente disputando o mesmo espaço na Veneza que todos amamos, ninguém está satisfeito: nem a multidão de até 100 mil visitantes que chega só para passar o dia e muito menos os 52 mil habitantes do Centro Histórico, núcleo urbano formado pelos seis sestieri (bairros) principais: San Marco, San Polo, Santa Croce, Dorsoduro, Castello e Cannaregio.
O desequilíbrio está na presença maior de viajantes do que de moradores. Um pequeno letreiro digital na vitrine da Farmácia Morelli, nos arredores da belíssima - e por isso mesmo superturística - Praça San Marco mostra que a população era de cerca de 170 mil pessoas em 1950. "Quanto mais visitantes chegam, mais habitantes saem", lamenta o proprietário Dr. Nicolò Morelli.
Mas se a população era três vezes maior há 70 anos, por que o incômodo com as multidões agora? Veneza perde mil habitantes por ano porque eles estão insatisfeitos com os serviços que já não priorizam suas necessidades e porque os preços são inflacionados com foco nos turistas. São 27 milhões de visitantes a cada ano, o que excede em quase 6 vezes os 5 milhões anuais que o Brasil inteiro recebe. E falta emprego, especialmente fora do turismo, responsável por 97% da economia local.
"O turismo não pode ser uma monocultura, a única economia da cidade", diz Dario Bertocchi, um dos autores do livro Overturismo: Excessos, Descontentamentos e Medidas em Viagem e Turismo, coletânea de textos científicos lançada pela editora inglesa Cabi em junho (ainda sem versão em português).