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Somente uma boca

PEDRO GRAVA ZANOTELLI
| Tempo de leitura: 2 min

O estilo boquirroto do Bolsonaro provocou uma tempestade nos lugares errados. Quando deveria cair na Amazônia, para apagar os incêndios, caiu na Europa, com coriscos e trovões. Em vez de resolver os problemas trouxe outros, de consequências políticas e econômicas inoportunas e indesejáveis. Até o Acordo Mercosul com a União Europeia, muito festejado, corre risco. O boquirrotismo traiu o propósito do presidente de defender o país que ele governa, atraindo mais crítica que apoio. Não que ele esteja totalmente errado, como muitos julgam.

Basta examinar os dados sobre a evolução do desmatamento amazônico e o noticiário sobre a extração ilegal de madeira e a garimpagem de ouro, para verificar que o problema vem de longe. O agravamento neste ano se deu pelo abuso oportunista da difícil fase de formação do novo governo.

Será que a Amazônia só não virou deserto porque as ONGs impediram? Qual o peso delas na estrutura de conservação e preservação do meio ambiente, de responsabilidade da União, Estados e Municípios? Qual a importância relativa dos recursos vindos do exterior, especificamente aplicados nessa atividade? Se nos órgãos públicos, sujeitos às exigências de licitação e prestação de contas aos seus respectivos tribunais, existem desvios de recursos, que chegaram ao extremo nestas últimas décadas, que dizer dos recursos destinados às ONGs? Não que todas as ONGs e todos os órgãos estatais se prestem a isso, mas quem ainda tem dúvidas que o número das que agem corretamente é bem menor que as outras?

Na medida em que o novo governo começou a trabalhar os pontos negros foram aparecendo e o boquirrotismo, excitado pelo antipetismo, não se conteve e os malfeitos passaram a ser anunciados antes de serem apurados e avaliados. Esse açodamento geralmente corre o risco de se transformar em fonte de injustiça ou de discussões que dificultam o entendimento necessário à solução dos problemas.

Emmanuel ensina que a "Sabedoria Divina nos revestiu, para controle dos recursos verbais, de dois olhos, dois ouvidos e tão somente uma boca e, assim mesmo, antes que a palavra se prefigure nos lábios, temos os impulsos do coração a se projetarem para o cérebro e, no cérebro, esses mesmos impulsos se transformam em pensamentos, suscetíveis de sofrer rigorosa seleção". Isso equivale a ter certeza do que vai dizer e se pode, deve ou convém ser dito. Como dizem os ajuizados: pense bem no que vai falar.

O que se fala tem a força do prestígio ou poder de quem fala. Essa sabedoria deve fundamentar o pronunciamento daqueles que decidem sobre assuntos capazes de provocar alterações na vida das pessoas como juízes, médicos, engenheiros, diretores, presidentes, até mesmo nos níveis mais modestos de chefes de família, líderes comunitários etc.

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