Tribuna do Leitor

Patriotismo

Cinthya Nunes, jornalista, professora e advogada - cinthyanvs@gmail.com
| Tempo de leitura: 3 min

Quando somos crianças temos algumas fixações curiosas, que podem ou não variar com o passar do tempo. Uma de minhas fases foi querer fazer parte da fanfarra da escola. Eu queria tocar algum instrumento musical e participar do desfile de 7 de setembro. Considerava isso uma honra, algo realmente importante, muito embora, para ser honesta, eu não tivesse a exata compreensão do que significava.

Eu estava com 8 anos e tinha me mudado com minha família para a pequena cidade de Clementina, no interior paulista, havia menos de um ano. Era um período de adaptação, pois se tratava de uma realidade completamente diversa, mas no primeiro Sete de Setembro na escola, tratei de me oferecer para compor o pessoal da fanfarra.

O primeiro ensaio foi marcado e como meus pais tinham que viajar com certa frequência, acabei perdendo a explicação inicial. Consegui garantir minha vaga e compareci no segundo ensaio. Sem que me desse conta, logo estava com uma caixa e baquetas nas mãos. Na época eu não sabia que era quase desprovida de coordenação motora, mas achei muito complicado tocar algo que eu nunca tinha visto na vida.

Alguém se aproximou de mim e me mostrou com segurar as baquetas e foi tudo. Ficamos em posição e começamos a marchar. Ouvi um apito e todos ao meu lado começaram a tocar, batendo as baquetas de forma ordenada. A música ia se formando em meus ouvidos, mas não nas minhas mãos. Eu não fazia a menor ideia do que fazer e por alguns momentos tive a ilusão de que rapidamente aprenderia o que fosse necessário. Esse engano, entretanto, durou muito pouco...

Escutei um apito e todos pararam. O professor ou o instrutor, não sei, pediu que tocássemos mais um pedaço. Em instantes ele apontou para mim e disse: _ Achei! O erro vem dali. Posso dizer que não me recordo de ter passado uma vergonha tão grande. Se o chão pudesse se abrir eu sumiria lá dentro, mas na vida real só me resignei e fiquei aguardando o veredicto. Com certeza seria expulsa da fanfarra.

Para minha sorte, em coisa de minutos substituíram a caixa por um pequeno bumbo, seguido de algumas explicações. Para meu alívio só havia uma baqueta e era bem pouco o que eu teria que fazer.

Por amor à Pátria e à minha dignidade, resolvi que dessa vez eu não poderia falhar. Forcei minha memória desgovernada a memorizar o que era necessário e assim conseguir participar dos demais ensaios sem ser o centro (negativo) das atenções.

No dia 7 de Setembro, devidamente paramentada, pronta para o meu bumbo, concentrada para não me perder no ritmo, desfilei orgulhosa pelas ruas principais, nas quais as pessoas observavam os desfiles, aplaudindo tudo, ainda que por educação. Além do alívio por não ter errado nada, eu me sentia parte de algo maior, e ao ouvir o Hino da Independência, tive os meus olhos de menina inundados por lágrimas.

Nunca mais participei de uma fanfarra, mas aquela foi mesmo uma experiência incrível...

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