Articulistas

Infâmia infância

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Complexo do Alemão. Zona norte. Rio de Janeiro. 20h17. Entre valas e vielas, do dia 20 de setembro, ela desce a ladeira. Cumpre seu trajeto com o avô rumo a um veículo. No meio do caminho, uma operação policial. Antes que a Kombi ganhe movimento, o projetil de um fuzil atinge as costas da menina negra de oito anos. Morta, Ágata Félix é metáfora triste da insegurança pública. É representação numérica e interminável da guerra contra as drogas. Ingredientes combinados, causadores da indigesta realidade social. Retrato de uma infância nada querida, da aurora de uma vida, que os anos não trarão mais.

Segundo o filósofo Espinosa, a infância é a pior época da vida. Longe de atribuir-lhe maldades. Quando crianças, dependemos inteiramente das vontades e juízos dos adultos que, despachantes de seus preconceitos e refém de suas superstições, projetam suas frustrações e seus ódios dilatados nos outros.

Gente capaz de negligenciar a insegurança e a desigualdade social. Pessoa decidida a apertar o gatilho e eliminar a criminalidade com tiros convulsivos. Alguém vocacionado a silenciar a morte de mais de 20 crianças no morro. Fatos superiores às interpretações.

Cada bala cuspida revela nosso medo uterino. Cada vítima alvejada, nossa íntima impotência. Tiros que abastecem dores coletivas. Fardas e forças que, ao vento, destilam ódios anárquicos, enquanto nossas frustrações, tal qual uma cor esmaecida, se perdem na banalidade das estatísticas. Assim, a tragédia, anelada à comoção popular, sensibiliza alguém a construir um poema. Eu, este ordinário artigo. A morte de Ágata é concreta. A falência do Estado no comprometimento de suas funções é abstrata.

Dia desses, minha filha desenhou uma boneca. Ajudei-a colorindo as sandálias de verde. O azul desmantelava-se como pedaço de carvão inútil de uma brasa apagada pela chuva. O cabelo soltava-se num marrom morno. Depois, colori a roupa com um amarelo sensato e o que carregava nas mãos repousadas obedientemente sobre o peito. Era um jardim abatido por podas incessantes.

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