Entrevista da semana

Beabá da jovialidade

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

"Entrei na sala de aula aos 7 anos e não sai mais". É assim que Jussemy Aguiar Monteiro descreve sua vivência e dedicação ao ensino da língua portuguesa. Apaixonada por literatura, pelo ofício e pela vida, aos 81 anos, ela não cogita deixar a docência, hoje no D'Incao Instituto de Ensino, e seus alunos tão cedo.

Filha de Rubens Monteiro, falecido em 1991, e Abibia Aguiar Monteiro, que morreu em fevereiro deste ano aos 108 anos, a professora herdou a jovialidade, a energia e o bom humor que transbordam em suas palavras. "Penso que quando se faz o que se gosta, você vai mais longe", sugere, ao ser questionada sobre o assunto.

Foi em tom de bate-papo, daqueles em que o sorriso não desgruda do rosto, que Jussemy conversou com a reportagem ao lado do também bem-humorado Fernando Azevedo Marques Steinmann, com quem compartilha a vida há 51 anos.

Nesta entrevista, ela fala sobre a escolha pela profissão, conta histórias da carreira e da família e se emociona ao lembrar da contribuição que buscou dar à academia.

Confira a seguir.

Jornal da Cidade - A senhora é bauruense?

Jussemy Aguiar Monteiro - Não, nasci em Lins e meus pais mudaram para cá em 1954, quando eu tinha 14 anos. Mas me sinto um pouco bauruense.

JC - Quais recordações deste tempo a senhora guarda?

Jussemy - Lembro que morávamos perto do Hospital de Base. Cheguei para fazer o último ano do ensino fundamental e fui estudar no Colégio São José, onde tive toda a minha formação. Depois cursei letras, ainda com as freiras, na Universidade do Sagrado Coração de Jesus, à época.

JC - Como surgiu a vontade de ser professora?

Jussemy - Tive muito incentivo à leitura dentro de casa. Meu pai comprava muitos gibis para mim. Ele contava que minha primeira professora dizia que eu não aprenderia a ler por conta dos gibis, mas pelo contrário, aprendi rapidamente e sempre fui viciada em ler. Por conta disso, segui uma profissão que me possibilitasse isso. Sou professora de literatura.

JC - E há quanto tempo a senhora leciona e para quais anos?

Jussemy - Comecei aos 21 anos. São 60 anos de sala de aula. A primeira escola foi na Liceu Noroeste e depois na Estadual Morais Pacheco. Fiquei lá até me mudar para São Paulo, onde morei de 1973 até 1997, sempre dando aulas. Meus alunos, até ano passado, eram do Fundamental 2, Ensino Médio e faculdade. Agora, estou só no D'Incao, onde dou aula para o 6.º ano do Fundamental e 1.° do Médio.

JC - E como é sua interação com os alunos tão jovens?

Jussemy - Gosto muito dos meus alunos, também aprendo com eles. É um desafio para mim, principalmente no uso das tecnologias, como os iPads, em sala de aula. Eles me chamam até de "Ju". Falam comigo hoje, da mesma forma como outros falavam quando eu comecei, com 21 anos.

JC - Durante sua carreira, alguns te marcaram?

Jussemy - Muitos, mas só para dar exemplos aqui de Bauru, tenho dois. Um é o Mauro Rasi, que foi meu aluno no conservatório, porque eu também fui professora de piano e história da música. Ele sempre retribuiu carinhosamente. O outro é o Edson Celulari, que foi meu aluno na escola e também marcou. Mas tenho carinho por todos.

JC - A senhora continuou estudando, mesmo depois desses anos todos de prática?

Jussemy - Eu não queria fazer mestrado, mas essa é uma história boa. Uma amiga minha, uns 10 anos mais moça que eu, insistiu muito para que eu fosse fazer mestrado com ela em Marília. Depois de muito, ela me convenceu. Na época, conheci e fui professora de um programa de educação continuada da Unesp para professorinhas do Brasil inteiro que já tinham alfabetizado muita gente, mas não tinham diploma. Desculpe, eu sempre choro lembrando disso. Nunca tive tanta pena. Eu via que as pobrezinhas estavam sendo adestradas, sem entender nada daqueles nomes complexos de linguística. E foi esse caso que eu levei para a dissertação do mestrado, orientada por Carlos da Fonseca Brandão, maravilhoso.

JC - Além de comentar sobre as aulas de música, ainda estou vendo este piano aqui na sala. A senhora ainda dá aulas de música?

Jussemy - Eu me formei no Conservatório e dei aula por 22 anos. Adoro dar aulas, mas não de piano. Deveria ter me dedicado mais a tocar. Já para literatura, amo uma sala de aula cheia. Quanto pior o aluno, melhor. É uma conquista ver como eles evoluem. Sempre tive o plano de parar de trabalhar e voltar para a música, mas não parei de trabalhar até agora (risos).

JC - E pretende parar? 

Jussemy - Eu acho que qualquer dia desses é capaz de eu morrer na sala de aula e alguém ter que me arrastar (risos). Eu continuo lendo, passeando, fazendo outras coisas, além da sala de aula, mas não penso em deixar não, só se não me quiserem mais

JC - Como a senhora explica essa energia e vivacidade que estou vendo aqui?

Jussemy - Minha mãe dizia: "fui vivendo e cheguei até aqui". Eu digo: "fui vivendo e trabalhando, cheguei até aqui". 

 

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