Turismo

Vinho e arquitetura em harmonia

Marcelo Lima
| Tempo de leitura: 3 min

JANELA

O "templo do vinho" na Toscana tem nome: Vinícola Antinori

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O arquiteto Oscar Niemeyer costumava dizer que, para ser boa, a arquitetura deveria provocar surpresa. A frase veio instantaneamente à minha cabeça assim que chegamos ao estacionamento da Vinícola Antinori (Via Cassia per Siena, 133, situada no vilarejo de Bargino, a cerca de 30 quilômetros de Florença). Afinal, me deparar com um pátio de estacionamento subterrâneo, frio e soturno, tendo como uma única entrada de luz o vão de uma grande escada helicoidal ao centro, não era exatamente o que eu poderia esperar de uma das vinícolas mais conceituadas de toda Itália.

Mas bastou que a portas do elevador de acesso ao primeiro plano se abrissem – é possível subir pela escada também – para que o impressionante edifício subitamente se revelasse. De fato, visto ao longe, de sua pequena estrada de acesso, é difícil ter noção do tamanho e da complexidade da construção. Uma ampla marquise de concreto, que tem seu traçado curvo reproduzido também no piso, foi nosso primeiro ponto de parada. Lá, enquanto avistávamos os vinhedos logo à frente e as instalações administrativas da vinícola ao fundo, ficamos conhecendo melhor o projeto e seu objetivo primordial que era de se diluir na paisagem toscana, tornando-se invisível.

Projetado em 2005 pelo arquiteto florentino Marco Casamonti, do escritório Archea Associati Studio, o edifício só foi concluído em 2012, após seis anos de obras, e foi construído quase que totalmente debaixo da terra, a um custo estimado de mais de 80 milhões de euros. "A ideia foi acompanhar o traçado das colinas, não se impor a elas. Por outro lado, isso não deixa de ser funcional, uma vez que o vinho pode ser produzido e conservado em caves subterrâneas, usando refrigeração natural", conta a arquiteta Lara Tonnicchi, do Archea Associati, que nos acompanhou na visita. "A própria coloração terracota da obra ajudou na tarefa de disfarçar a obra. Além do ferro oxidado, parte da terra retirada para a implantação do edifício foi usada como matéria-prima na confecção do concreto da construção", revela ela.

Na sequência, ao adentrarmos a sede administrativa, teve início nossa visita à vinícola propriamente dita, com um giro pelo depósito das barricas de carvalho, com seu teto em formato de arco e suas paredes cobertas de tijolos de terracota, encaixados, um a um, em uma estrutura de ferro. Como ele se encontra 18 metros abaixo do nível do solo, a temperatura é naturalmente baixa, dispensando refrigeração artificial. Em seguida, conhecemos o setor dos tanques metálicos de fermentação e, de lá, antes de dar início à degustação de alguns dos principais vinhos da casa, partimos para uma pequena visita ao museu e à biblioteca da Antinori.

Logo na entrada, uma tela com a árvore genealógica da família, do século 16 e pintada a óleo, atesta que a família Antinori está instalada na região há mais de 600 anos. Giovanni di Piero, o primeiro deles, em 1385 já se ocupava de transformar uva em vinho. De lá para cá, se sucederam 26 gerações. "A última delas, com Piero Antinori à frente, foi responsável pela construção das atuais instalações", explicou Lara, enquanto nos mostrava outra raridade: uma prensa de vinho usada no século 19, desenhada na escola de Leonardo da Vinci, e recuperada pelos Antinori. Ao lado dela, em meio a obras de arte de várias épocas, um rico acervo de livros e documentos atestava a vocação vinícola do clã ao longo dos séculos.

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