Amar é um longo e penoso aprendizado. Há de se começar aprendendo a amar o minúsculo movimento dos insetos, as gotículas que umedecem as folhas, até mesmo os pedriscos da estrada dormindo o sono do nunca acordar.
Há de se aprender, enfim, a amar a vida miúda que, todos os dias, nascendo o Sol, faz questão de se mostrar. Assim, feito bailarina, a vida abre as cortinas e, no palco, põe-se a dançar. Quer ser percebida, acolhida, quem sabe a plateia acordar. Inútil é o cenário para desprezada coreografia. É tão grande a miopia, que os olhos acordam preguiçosos e, remelentos, nada querem enxergar. A vida que lhes interessa é outra, e mora dentro do celular.
Amar é um longo e dolorido aprendizado. Há de se aprender a cortar na própria carne, cada dia um pouco mais, o autotesão que com o espelho quer transar. Só aprende a amar quem tem a coragem de lutar contra o pior dos inimigos, o inflado ego que, de si mesmo lambuzado, o outro recusa-se a quer enxergar. Nessa fome ególatra, cada um come a si mesmo num banquete autofágico. Eu me basto, tu te adoras, ele se venera e ela se orgasma se no espelho se encontrar. Arnaldo Jabor põe o dedo na ferida quando diz que o desejo do macho não é mais o de ser gente, mas o de coisa ser, assim como perigosa metralhadora ou uma possante Ferrari. Mais do que tudo, o macho quer ser "um grande pênis voador, um passaralho superpotente, mas irresponsável e frívolo, que pousa e voa de novo sem flacidez e sem angústias". Um "passaralho" assim ereto passa a vida toda voando e bicando as flores que não soube amar.
Como é difícil o longo aprendizado do amor. Num mundo transbordante de egos por si apaixonados, como aprender a se entregar? Numa vida essencialmente bancária de tanto investir como aprender a dividir?
O amor virou estatística de conquistas, importa apenas o número de presas abatidas, o troféu a conseguir. O amor virou mercadoria com prazo de validade restrito, virou fast food na internet: moços e moças lindas, todos numerados, é só clicar e pedir.