Eu era apenas uma criança quando o mundo me mostrou a sua cara de bicho. Foi uma porrada! Sentado, eu construía, com areia molhada, castelos, estradas, montanhas e mares sem fim.
Era assim, sonhando, que eu dava forma ao meu cenário imaginário, que da cabeça exigia sair. Palitos, folhas, gravetos, pedrinhas, tudo eu manuseava nesse meu enredo, que tinha princesa, príncipe com espada afiada, rainha malvada, cavalos ligeiros, e tudo o mais que na minha fantasia de criança pudesse existir ou caber.
Brincando com a magia da vida, a brutalidade da morte conheci. "A mãe da Leninha morreu!" Foi assim que a estúpida voz adulta noticiou. Uma porrada! Como assim? A mãe da Leninha? Não podia ser! A minha amiguinha de trança e de barro, que comigo construía, na areia, outras histórias encantadas? O eco nervoso, feito bigorna, passou a martelar-me os ouvidos: morreu, morreu, morreu...Não conseguia entender frase tão simples, que para sempre na minha cabeça ficou: A mãe da Leninha morreu! Antes de sentir a dor dela, a minha primeiro chegou e me apunhalou. Um golpe só derrubava toda a minha arquitetura infantil. Então era isso! A minha mãe poderia morrer também!
Pensei imediatamente no meu pai. Não podia ser, coisas estranhas estavam entrando na minha história de criança, sem que nela pudessem caber. Com brutal clarividência, percebi, naquele instante, que a vida era feita de areia. Não passava de um castelo frágil, exatamente como o meu brinquedo de menino.
A qualquer momento, o vento, onda traiçoeira do destino, poderia na minha vida ventar e com ele tudo levar.