Entrevista da semana

Recomeço com garra de vencedor

'Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Melhor brasileiro classificado na 95ª Corrida de São Silvestre, no último dia 31 de dezembro, em São Paulo, Daniel Nascimento não se envergonha de contar como superou a decepção de não chegar ao fim da primeira vez que disputou a prova e do momento em que, desanimado, largou o atletismo. Logo no começo de 2019, decidiu parar de correr e voltou para a roça para ajudar a mãe, Valdirene de Paula Ferreira, por sinal a sua maior incentivadora no esporte. Mas tudo mudou quando conhecer o projeto da Associação Bauruense de Desportes Aquáticos (ABDA). E o resultado depois de muito trrabalho? O 11º lugar na São Silvestre, com o tempo de  46min32s.

Jornal da Cidade - É verdade que pensou em parar de correr? 

Daniel Nascimento - Pensei não, parei. Achei que não ia dar mais nada. Voltei para a casa da minha mãe, Valdirene de Paula Ferreira, em Paraguaçu Paulista, e fui ajudá-la a cortar cana. Depois, conversando com o Neto Gonçalves (técnico de atletismo da ABDA), que resolveu me procurar, vim conhecer o projeto da ABDA  e, nossa! Tudo mudou. Ele me deu um suporte incrível.

JC - Quando foi isso?

Nascimento - Começamos a conversar em março e vim para Bauru em maio. Emagreci 8 quilos com o apoio da Carol Bernardino, a nutricionista, do preparador físico Fábio Amano e os treinos do Neto. Deslanchei e consegui o índice para estar no primeiro pelotão, o da elite. Deu resultado.  

JC - Você treina quanto por dia?

Nascimento - Duas horas e meia pela manhã e uma hora e meia à tarde. Agora mesmo estou embalado. Dia 18, disputo a Copa do Brasil de Cross Country, que é seletiva e classifica os três primeiros para o Pan de Cross Country no Canadá. 

JC - Quando você sentiu que seria o melhor brasileiro na São Silvestre?

Nascimento - Procurei não me distanciar dos favoritos desde o começo e, na subida da Brigadeiro, aquela subida, a temida (risos), vão avisando em que lugar você está e ouvi que eu estava em 14º, com dois brasileiros e um queniano. A subida terminou, acelerei e ultrapassei os três de uma só vez. E teve o incentivo do público.

JC - Bem diferente do ano anterior...

Nascimento - Eu disputei em 2018 mais para ver como era. Não estava tão bem preparado. Tive uma lesão no meio do caminho, muita dor. Achei que São Silvestre não era para mim, não (risos).

JC - Não achou que iria faltar perna?

Nascimento - Capaz! Nada disso, não. A adrenalina é grande. Duas horas depois de acabada a corrida, fui me dar conta que nem tinha sentado.

JC - E com quem dividiu a emoção?

Nascimento - Com a imprensa, com quem estava ali.  O Neto me acompanhou na saída no pelotão de elite, deu as instruções, mas ele só conseguiu chegar nos primeiros colocados 40 minutos depois, por causa da burocracia. Daí, foi aquele abraço apertado, né?

JC - E a sua mãe, acompanhou a corrida?

Nascimento - Nada disso. Imagina que mesmo sendo dia 31, ela estava na roça. E ficou sabendo da pior e, ao mesmo tempo, da melhor forma possível. O encarregado, fiscal da usina, assistiu e soube que eu era filho de uma cortadora que estava no turno. Então, pegou um carro e foi lá na roça chamá-la e já foi perguntando: "Quem é a Valdirene, aqui?". Na hora, ela pensou que tinha acontecido algo grave, mas depois que soube foi só festa.

JC - E ela te incentiva muito, não?

Nascimento - Demais. É um exemplo. Acorda às 3 da madrugada sempre feliz, de cara boa. "Mãe, como a senhora pode ser assim, ir para a roça com essa alegria?", perguntei um dia. E ela disse: "Tem que acreditar no que faz, independente do que seja". Numa mais me esqueci disso. Como somos de família pobre (eu tenho mais quatro irmãos) e muito grande (é tanta gente que alguns nem conheço direito), é difícil para ela me acompanhar. Ela só me viu correr pela primeira vez, há pouco tempo, em Lençóis Paulista. E olha que eu comecei há um bom tempo.

JC - Como foi que despertou para o esporte?

Nascimento - Queria ser jogador de futebol, e até tentei. Aos 13 anos, o Paraguaçuense não estava com essa bola toda (risos) e o técnico me indicou para o atletismo. Meus primeiros técnicos foram o casal Regiane e Evandro Teixeira, professores de educação física e técnicos. Comecei "escondidinho", é uma história engraçada.

JC - Pode tratar de contar...

Nascimento - O Evandro era o técnico principal. Como ele dava aulas em escolas durante o dia, ela é quem aplicava o treinamento nas turmas durante o dia. Fui para a equipe B, claro. Mas a Regiane me preparou escondido. Viu meu potencial. Havia uma competição e ela obrigou ele a me inscrever na equipe adulta, no principal. Ele nem me conhecia e não queria (risos). E eu fui lá e ganhei a prova (risos). Daí fui treinar com a equipe A, né? Logo ganhei um campeonato mirim, a prova dos 3 mil metros nos Jogos da Juventude. Depois ganhei o Sul-americano em Lima, em 2013. Já nem sei mais quantas provas disputei. Só sei que de nove sul-americanos venci sete. E ganhei dois pan-americanos. E fui também para a China. E assim foi, uma competição atrás da outra até aqui.

JC - E o futuro?

Nascimento - Focar o ciclo olímpico de 2024, para Paris. Representar o Brasil seria um sonho. Quem sabe, né? E estudar. Voltei agora ao colegial. O estudo é muito importante. Aliás, gosto de dizer que "o ser humano é o único que passa a vida toda estudando e morre sem saber de nada".

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