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Caminhos 'invisíveis' da violência

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

A agressão física é somente a ponta da violência contra a mulher, que tem como base uma série de atitudes iniciadas com outros tipos de abusos, por vezes, bem mais sutis e ocultados pela máscara da normatização. São diferentes tipos de violência contra a mulher - a emocional e a psicológica, por exemplo -, que envolvem sentimentos de posse ou de ciúme por parte do agressor, desde a sujeição à dependência financeira até a mais grave: o feminicídio (leia mais na página 14).

Em 2019, a pesquisa "Visível e Invisível: A vitimização de mulheres no Brasil", realizada pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostrou que 21,8% (12,5 milhões) foram vítimas de ofensa verbal, como insulto, humilhação ou xingamento. O estudo ainda mostrou que, ao menos, 22 milhões de mulheres brasileiras com 16 anos ou mais sofreram alguma experiência de assédio ao longo do ano anterior.

Neste domingo (8), Dia Internacional da Mulher, o JC traz uma entrevista com a titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Bauru, Priscila Bianchini, sobre essas atitudes que tolhem a liberdade da mulher e podem resultar em casos mais graves. Confira:

Jornal da Cidade - É de conhecimento amplo que, infelizmente, a mulher sofre violências físicas. Mas, quais são as chamadas violências "invisíveis"?

Priscila Bianchini - São violências que trazem o desconforto emocional, que mexem com a parte psíquica da mulher. Como exemplo, a perseguição via Internet, a difamação ou a exposição de fotos e vídeos íntimos. As "piadinhas", os assédios, as "cantadas", tudo que traz desconforto e constrangimento para mulher, que acaba sofrendo. Em todos os lugares, isso pode acontecer: em casa, no trabalho, nas ruas, nas festas. No trabalho, ainda existe a questão de não querer perder o emprego.

JC - Isso pode inibir a denúncia da mulher?

Priscila - Sim, até porque, muitas vezes, isso acontece só entre os dois envolvidos. É a palavra dela contra a dele. Isso pode desmotivá-la. Posso dizer que é bem pequeno o número de registros de assédio. Pode haver uma subnotificação. E é importante lembrar que a polícia só atua quando o crime já aconteceu. É importante cuidar de todo caminho que antecede e leva ao crime, para evitá-lo. Para isso, existe toda uma rede de apoio e que, em Bauru, a delegacia está ligada.

JC - Existe uma relação entre as atitudes machistas tidas como "normais" até violência explícita?

Priscila - Nós já sofremos culturalmente com a discriminação que, desde o passado, nos tiraram direitos, e estamos reconstruindo essa história. A sociedade coloca a culpa nas mulheres que, por muito tempo, sofreram caladas. E essa violência vai criando outras formas, até nos meios digitais. Recentemente, um juiz decretou medida protetiva para uma vítima de stalker (perseguidor) nas redes sociais. Começa assim e vai evoluindo. De um assédio para uma agressão e pode chegar ao feminicídio.

JC - O crime de importunação sexual tem uma lei mais recente. Quais as atitudes que se enquadram nessa legislação?

Priscila - A "passada de mão" sem permissão, quando em ambientes aglomerados, como transportes públicos; tem a "encoxada", alguém se aproveitando da situação. Ou seja, praticar contra alguém e sem a sua permissão ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou de outra pessoa. Hoje, é considerado um crime grave e a mulher deve registrar boletim de ocorrência.

JC - Muito se fala sobre não "meter a colher" em briga entre casais. Mas, pode acontecer de outras pessoas detectarem com maior facilidade atitudes nocivas a mulheres. Esse olhar é importante?

Priscila - Muitas vezes, quando há a denúncia de um terceiro, a mulher nega, por diversos motivos, que esteja sofrendo violência ou abusos. Mas, com certeza, esse olhar para as relações é muito importante. O combate a violência contra a mulher é uma obrigação de toda a sociedade, porque você pode evitar um feminicídio. Temos que "meter a colher", sim.

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