Quando o assunto é solidariedade, Altamir Pereira Pardino leva a sério. Desde que se voluntariou em 2004 na ONG SOS Global, já fez mais de uma dezena de viagens para atender vítimas de catástrofes em lugares como Sri Lanka, Nepal, Indonésia, Mianmar, Filipinas e Haiti.
Locais devastados por terremotos, tufões, vulcões, desastres naturais. Isso sem falar nas tragédias brasileiras, como Mariana, Brumadinho e, mais recentemente, Iconha, no Espírito Santo, que quase sumiu do mapa com as chuvas de verão. Agora, Altamir aguarda o chamado para ir até a Baixada Santista.
Aqui conta um pouco da sua trajetória e da experiência de levar um sorriso a quem parece ter perdido os motivos para sorrir.
Jornal da Cidade: O que é a SOS Global?
Altamir Pardino: Uma Organização Não Governamental (ONG), sem fins lucrativos, com sede em São Paulo, fundada por uma indonésia que vive no Brasil, para ajudar seus conterrâneos. O trabalho dela ganhou força após aquele grande tsunami de 2004, um dos mais mortais desastres naturais da história humana. A partir daí, a ONG cresceu e está no mundo todo.
JC: Lá é o seu voluntariado?
Altamir: Faço parte da equipe "lameiros" (risos), porque a gente entra literalmente na lama mesmo (risos). O que vamos fazer muda muito de país para país. Nas Filipinas (devastada por um tufão), fui para a montagem de um projeto de telhado à prova de furacões. Era para ser só o telhado, mas, chegando lá, a população ainda não havia subido as paredes. Era a providência divina, porque, se eles fizessem como o costume deles, as paredes não sustentariam o telhado. Conseguimos ajuda para montar as paredes e fizemos uma vila inteira.
JC: Você, logicamente, tem experiência em construção?
Altamir: Tenho nada (risos). Sou motorista. Tive que aprender na marra e, muitas vezes, com a ajuda do meu pai aqui no Brasil, um mecânico que é um verdadeiro MacGyver. Ligava e ele me dava as coordenadas. Mas o trabalho vai além da parte técnica, sempre há um lado mais humanizado, é preciso ensinar as crianças até a voltar a brincar, a sorrir de novo. É preciso estar pronto para levar palavras de conforto, mesmo com a dificuldade do idioma. A gente chora junto com a dor do outro.
JC - É um trabalho de equipe...
Altamir: Sempre vamos com uma equipe e o mínimo de estrutura já conseguido através de doações. Cada um viaja de acordo com suas disponibilidades, afinal, os voluntários têm seus compromissos, família, sobrevivência. Mas o resultado final é sempre positivo. Como no caso de veterinários de Bauru que foram prestar assistência aos cães abandonados na tragédia de Brumadinho. Não esperávamos tanto apoio. Nos locais das tragédias, o que vinga mesmo é o trabalho de equipe e é tocante como todos se ajudam.
JC - Você falou em providência divina. É um homem de fé, não é?
Altamir: Sim, esse trabalho tem tudo a ver com minha formação cristã. Meu pai é presbítero da Terceira Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. O trabalho da ONG é ecumênico, encontramos e ajudamos as pessoas de todos os credos e é preciso saber respeitar a devoção de cada um. Mas o que me motiva mesmo é uma espécie de chamado divino que me impele a ir lá e ajudar. Só para citar mais um exemplo do que chamo de providência divina, quando estávamos fazendo essas casas que contei, era praticamente só o barracão. E, de repente, passou uma equipe inglesa e perguntou como faríamos as fossas sanitárias. E isso a gente não tinha projetado, até porque a comunidade era tão pobre que nem tinha isso antes. Mas essa equipe inglesa tinha contato com um casal disposto a doar o material. E assim foi. Foram feitas não só as fossas como também as divisórias dos cômodos.
JC - Dá para fazer um paralelo sobre a diferença do trabalho lá fora e o no Brasil?
Altamir: Sempre faço isso. As pessoas precisam acreditar que o socorro, o trabalho da Defesa Civil no Brasil é ótimo. Para mim, é comparável aos Estados Unidos, só perde para eles. A gente precisa conhecer lá fora para poder julgar. E o melhor é que o brasileiro aprende rápido e melhora cada vez mais. Foi o caso de Mariana e Brumadinho.
JC - Como assim?
Altamir: No começo, as doações chegavam, eram muitas, a solidariedade do brasileiro é tocante demais, mas vinha tudo muito misturado. Isso dificultava o atendimento. Num instante, se criou uma logística, com a separação de roupas por tamanho, sexo, faixa etária; separação de alimentos, direitinho e isso facilitou muito a vida de quem estava na distribuição.
JC- Sobre a distribuição, você escolheu trabalhar onde é mais difícil chegar, não é?
Altamir: É uma das filosofias da SOS Global, ir aonde tem gente atingida e esquecida. Para se ter uma ideia, no Nepal, após um terremoto, não entravam carros, nada. E levar alimentos incluía andar um dia inteiro, subindo uma montanha perto do Himalaia, a cadeia mais alta do mundo, com os sacos nas costas.
JC - Muitos perrengues?
Altamir - Vários, mas o que mais me deu medo foi o da vaca sagrada. No Nepal, íamos levar uma carga de arroz para os sobreviventes de um terremoto e o motorista do caminhão, inadvertidamente, buzinou para que vacas saíssem da estrada. Em instantes, moradores da região se armaram de pedras para nos apedrejar por desrespeito ao animal sagrado. Foi preciso a influência de um guia, um tradutor, falando com um líder, para as pessoas entenderem a diferença de cultura. Deu medo da fúria deles.
JC - Por isso vocês fazem um bom treinamento antes?
Altamir: Sim, isso é essencial. Vamos ensinar higiene, por exemplo, para gente que nunca usou um sabonete na vida. É preciso respeitar isso. Dominar o inglês também. Eu tenho formação de comissário de voo, mas não exerci (ainda!), porque resolvi me inscrever numa empresa que recrutava jovens para trabalhar nos EUA, na Flórida. Fui trabalhar com jardinagem. E, depois, na volta, já deu certo de eu ser aprovado como voluntário da SOS Global. Sobre o inglês, tem uma passagem aqui em Bauru: eu vinha de uma escola pública quando fui estudar no La Salle. Os dois primeiros bimestres foram horríveis. O professor me avisou que eu não ia passar. Me senti desafiado. Estudei muito, muito mesmo e consegui (risos). Só tenho a agradecer a esse professor. Então acho que é isso, superação.
JC - E a família como fica quando você viaja?
Altamir: Bom, meus pais me dão o maior apoio. Meu pai é mais tranquilo, sabe que, se é um chamado de Deus, é porque estou bem guardado. Minha mãe se preocupa muito com minha saúde. Até porque sempre volto com verminoses (risos). Ela surta com isso (risos). Afinal, as condições são precárias. Recentemente, achei que estava com depressão e era apenas uma anemia. Felizmente.