Em depoimento para a Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investiga a situação da Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab), na Câmara Municipal, funcionários da companhia falaram publicamente a respeito dos saques praticados mensalmente entre 2007 e 2019, somando valores milionários - cerca de R$ 55 milhões. Todos citaram que o ex-presidente Edison Bastos Gasparini Jr. controlava toda a entrada e saída deste dinheiro, não permitindo que outros servidores tivessem acesso ao contrato de renegociação do seguro com a Caixa, que deveria ser o destino da verba.
Funcionária da Cohab desde 2011, atuando no setor financeiro, Thayná Maximiano Salcedo disse que a Operação "João de Barro", deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), pegou todos os funcionários de surpresa, pois nenhum sabia dos desfalques no caixa da Cohab. Ela citou que Gasparini Jr. falava em retomar a construção de casas.
Ainda de acordo com a servidora, os saques eram feitos na Caixa e Banco do Brasil. Algumas vezes, mais de um funcionário era encarregado de realizar o serviço, em outras apenas um ia, com carro oficial da empresa, já próximo ao horário de encerramento do expediente bancário. Os saques chegaram ao montante de R$ 95 mil, de uma única vez, valor que evitava rastreamento do antigo Coaf. A média mensal era de R$ 400 mil, sacados em várias ocasiões, e tinha como justificativa o pagamento da dívida com o seguro habitacional. Outro servidor ouvido pela CEI foi David Oliveira Bassoto, que está na Cohab desde 2013. Ele confirmou a mesma prática no período em que Gasparini Jr. era presidente.
Assim como sua colega de trabalho, Bassoto também relatou ter ficado bastante surpreso com as revelações da operação do Gaeco, e que muitas informações chegavam aos funcionários através da mídia. Ele também destacou que os saques variavam entre R$ 45 mil e R$ 95 mil, e o dinheiro era entregue ao então presidente Gasparini Jr. em malotes. Já o contador Marcelo Alba disse que fazia a conferência manual do valor, e quase sempre não havia divergência em relação ao que estava no cheque compensado nas agências bancárias.
Ao ser questionado pelos vereadores Markinho Souza (PP), Coronel Meira (PSB) e Chiara Ranieri (DEM) sobre a contabilidade, Alba destacou que assumiu o seu cargo atual em 2015, e a companhia já tinha um passivo descoberto elevado. Contudo, não detalhou como a Cohab poderia argumentar contabilmente a saída dos quase R$ 55 milhões sem a apresentação de notas ou recibos.
CENTRALIZADOR
Os três servidores enfatizaram que Edison Bastos Gasparini Jr. centralizou todas as decisões a respeito do pagamento da dívida com o seguro habitacional, com a Caixa. Eles alegam que não tiveram, em nenhum momento, acesso ao contrato, porém o ex-presidente afirmava que o acordo previa o pagamento apenas em dinheiro, por isso os saques com os valores de até R$ 95 mil.
Em seu depoimento, Alba frisou ainda que nem mesmo o então diretor financeiro Paulo Sérgio Gobbi era informado por ele sobre a situação, pois tudo tinha que ser repassado apenas a Gasparini Jr. O contador lembrou ainda que os funcionários da Cohab tinham medo do ex-presidente. Thayná, David e Alba também citaram que tentaram convencer a antiga diretoria a mudar a forma de pagamento, mudando de dinheiro em espécie para cheque, transferência eletrônica ou depósito, porém Gasparini Jr. sempre recusou.
O ex-presidente Edison Bastos Gasparini Jr., o ex-diretor financeiro Paulo Sérgio Gobbi e o ex-gerente jurídico Milton Gimael foram convidados para depor e prestarem esclarecimentos, na semana passada, mas não compareceram para falar à CEI da Câmara.