Wagner Teodoro

Falta data, sobra jogo


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O ano de 2020 trazia um cardápio futebolístico apetitoso. Além dos Estaduais, Brasileirão, Copa do Brasil, Libertadores e Mundial de Clubes, teríamos Copa América, Eurocopa e Eliminatórias. Calendário cheio, muitos jogos, vários deles certamente bons e alguns ótimos. Mas eis que surge o coronavírus meio que na garupa de um dos Cavaleiros do Apocalípse, trazendo uma “peste” que simplesmente paralisa o mundo e, obviamente, relega ao segundo plano o futebol, que suspende todas as competições diante da calamidade. Suspensos ficam também os destinos de todos os campeonatos, alguns já adiados, outros em compasso de espera para terem seu desfecho. Se é que o terão.

Com a paralisação, que não tem previsão de fim e nem perspectiva de quando os jogos poderão ser retomados com segurança, uma das discussões que cresceram ao longo da semana foi sobre as datas suficientes para tantas partidas. Falta calendário. O Paulistão, por exemplo, parou a duas rodadas do final da primeira fase. E à medida que avancemos em abril sem jogos, vamos encurtar o prazo para definições e encostar no momento de começar o Brasileirão. O desafio será encontrar uma forma de resolver o Estadual sem prejudicar o Nacional. Nem vou entrar na questão de contratos de jogadores terminando, outro entrave.

Especificamente sobre calendário, para o Paulistão não ficar sem campeão, a exemplo do que foi feito na Superliga feminina de vôlei, mudanças na fórmula de disputa terão que ocorrer. Alguns defendem declarar o Santo André, líder, campeão. Não haveria rebaixamento. Eu penso que o campeonato poderia ser resolvido em cinco datas. As duas rodadas finais da fase inicial, definindo os rebaixados. Quartas de final, semifinal e final em jogo único. É justo? Pelo menos seria tudo resolvido em campo e em um ano absolutamente atípico, uma solução. O problema é que algumas equipes podem até mesmo dar férias antecipadas aos jogadores já prevendo a maratona que virá. Isso inviabilizaria a retomada do Paulistão.

Sem mexer no Nacional

Mudanças no modelo do Brasileirão também são especuladas. Eu sou absolutamente contra qualquer alteração. Demorou muito para o campeonato se consolidar com o atual regulamento de pontos corridos, uma fórmula justa e consagrada mundialmente. Colocar mata-mata no Nacional seria um retrocesso e, além de tudo, mais do mesmo. Já temos mata-mata em Estadual, Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana… É emocionante? Sim. Mas o Brasileirão em pontos corridos premia regularidade e planejamento. Na minha opinião, o melhor para uma competição longa.

Além disso, uma adaptação para o sistema de mata-mata traria prejuízo aos cofres dos clubes em um ano já complicado pelo impasse causado pelo coronavírus. Tendo um número menor de jogos e sem as atuais 380 partidas, os direitos de transmissão fatalmente seriam revistos. Num modelo de turno único com classificação dos oito primeiros para o mata-mata, o campeonato cairia para pouco mais de 200 jogos e certamente haveria renegociação sobre valores repassados aos clubes pelas emissoras que têm os direitos de transmissão.

Na pendura

Não é segredo que os clubes, salvo pouquíssimas exceções, vivem situação bem complicada financeiramente. Vários adiantam cotas e com uma renegociação diminuindo valores poderiam até mesmo terminar de mãos abanando. O produto Brasileirão vem buscando se tornar cada vez mais forte, ganhar visibilidade internacional, para isso, precisa de solidez, segurança, continuidade e credibilidade. Mesmo em um ano abalado por uma tragédia maior e até por isso, a posição que os clubes da primeira divisão nacional deveriam adotar é a de adaptar o calendário ao Brasileirão e não o contrário.

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