Sou do tempo em que "mascarada" era só uma pessoa metida. Bons tempos. Estamos, hoje, quase todos assim: com rostos encobertos e temores escancarados. Necessidade e estranhamento ocupam o mesmo espaço.
É provável que tanto máscaras caseiras quanto customizadas se tornem uma constante. Aliás, nesse segundo quesito, foram mesmo lançadas, ainda em fevereiro, na Semana de Moda de Nova York. Com direito a estampas e pedrarias.
Penso na música "Futuros Amantes", de Chico Buarque. Na parte que diz "os escafandristas virão explorar sua casa, seu quarto, suas coisas". Será que esse esquisito amanhã já chegou? Credo: é de prender a respiração. Aí você vai até a Netflix e estão lá: "Pandemia" (série documental anterior ao novo coronavírus) e "Epidemia" (ficção de 1995). Já na HBO Go tem "Contágio" (ficção de 2011). Acomodados num sofá protetor, merecemos uma trégua. Achei a minha. Atende pelo nome de "Virgin River" (também da Netflix). É o que chamam por aí de "confort série". Leve, mas não irreal. Sem tolices. É a minha novelinha da madrugada. Os empáticos personagens, quase todos, têm lá seus problemas com o passado. Fatos que irradiam tensões até o presente.
Quase dá saudade do tempo em que as angústias não estavam tão coladas no momento. Vinham em ondas, de vez em quando, a bordo de incômodas memórias. A gente superava. A coisa agora ficou pior. E mais real e imediata.
Na trama de "Virgin River", pelo visto, muitas máscaras sociais ainda vão cair. E alguns recomeços deixarão de ser só intenções. Torço pelos bons moradores do local. Eventualmente, sorriem na tela. Não tenho visto muita gente sorrindo fora dela. Mesmo que alguém de verdade se sinta no direito de tal "despropósito", que é sorrir, talvez não tenha seu belo impulso percebido. Afinal, estará de máscara.
Confinado em sua triste discrição. Distanciado de uma alegria que precisa logo voltar. Até para tomar o lugar do vírus. E contagiar.