Neste momento de pandemia, privilégio é trabalhar em casa. Mas, se o home office diminui o risco de contágio pelo novo coronavírus, pode aumentar o de esgotamento físico e mental. Profissionais estão tendo de se adaptar no susto ao sistema remoto, ao mesmo tempo em que cumprem a quarentena sozinhos ou com toda a família. E tudo isso sem redução do volume de trabalho.
O professor Douglas Sanches nunca esteve tão atarefado. Ele se dedica à criação de um ambiente virtual de aulas para a escola na qual é assessor pedagógico, em Guarulhos. "Eu fico o tempo todo online para tirar dúvidas em seis grupos de WhatsApp, carrego o celular três vezes por dia. O desgaste é muito maior", diz. Depois de exceder o expediente nos primeiros dias, ele e seus colegas chegaram à conclusão de que precisam respeitar o horário comercial para não enlouquecerem. "Mesmo assim, das 8h às 18h não tenho pausa."
A publicitária Laura (nome fictício)tem começado a jornada antes do horário, terminado depois e reduzido o intervalo de almoço. "Se você é ansioso e tem prazos curtos de entrega, o home office te estimula a não cumprir os momentos de descanso", afirma. Ela sente pressão para se manter disponível o tempo todo e responder as demandas imediatamente. "E, depois de trabalhar, você ainda está em casa isolada e preocupada com a doença. É extenuante."
O clima de exceção aumenta a sensação de desgaste, diz Maria da Conceição Uvaldo, pesquisadora do Instituto de Psicologia da USP. A rotina foi quebrada e, para manter a saúde física e mental, é preciso criar novos hábitos. "Em alguns casos, a pessoa sente que está com excesso de trabalho, mas na verdade ela está desorganizada", diz.
É importante respeitar os momentos de pausa e estabelecer um lugar de escritório, que pode ser um cômodo ou até uma mesa. Assim, ao sair dali, a pessoa está se desligando das tarefas. Isso também sinaliza para outros moradores da casa, principalmente para as crianças, que quando o profissional está naquele espaço não deve ser incomodado.
Estabelecer uma nova rotina tem sido um desafio especialmente para quem está em casa com filhos pequenos. Gerente de RH em uma grande empresa, Larissa (nome fictício) teve um aumento considerável no volume de trabalho por causa do período conturbado. Ao mesmo tempo, precisa dar atenção integral à filha de 2 anos. O marido está em home office, mas só ajuda no cuidado com a criança. "As responsabilidades principais ficam para mim. Há um machismo estrutural na sociedade, ainda."
Para dar conta de tudo, ela tem feito reuniões por teleconferência durante o dia e estendido a jornada até a madrugada. "Este contexto mexe com o relógio biológico. Isso baixa a imunidade de qualquer um", diz.