Em um cenário onde suas características e atuações estão sob os holofotes, os vírus - sobretudo o da ordem que causa a Covid-19 - são um dos vilões mais temidos pela humanidade. Segundo o virologista e professor doutor João Pessoa Araújo Junior, que é vinculado ao Departamento de Ciências Químicas e Biológicas do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu e faz parte da diretoria da Sociedade Brasileira de Virologia, o mundo é desses organismos acelulares que infectam tudo o tempo todo.
"Vírus, todos os dias, infectam em todos os lugares. Eles tiveram uma evolução independente e, se não fossem os vírus, nós não existiríamos. Mais de 30% do genoma humano é viral, já que eram os únicos que conseguiam levar informação de um lado a outro para gerar a diversidade dos seres vivos", explica o especialista, em entrevista ao JC, por videochamada, na última semana.
Nesta e na próxima página, o profissional, que destaca o papel fundamental da ciência na luta contra as doenças causadas pelos vírus, fala sobre a atuação e presença dessas pequenas moléculas acelulares, explana as diferenças entre o novo coronavírus dos demais e comenta sobre vacinas e a cura para a Covid-19. "Entramos em um túnel totalmente escuro e com diversos buracos nos quais podemos cair e morrer. Só a ciência e os que estão trabalhando em suas expertises são capazes de acender pequenas lâmpadas neste caminho, para deixar a travessia mais segura. Investir em ciência e saúde é investir em defesa da Nação", afirma.
Inclusive, João Pessoa implementou testes de Covid-19 em Botucatu e segue colaborando nos centros da Unesp em Araraquara e São José do Rio Preto para realizarem os diagnósticos. "Estamos auxiliando no processo de obtenção das licenças necessárias e credenciamentos. Hoje, Botucatu e Araraquara não têm filas de diagnóstico. Todos os casos coletados receberam resultados em 48 horas", comemora o pesquisador. Confira alguns trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Qual a diferença entre os vírus e as bactérias?
João Pessoa Araújo Junior - As bactérias fazem parte do mundo celular, que é composto pela célula mais simples que existe. Nela, contém o mínimo necessário para sobreviver independente de outro organismo. Tem o DNA, que é como se fosse uma biblioteca, em que enzimas retiram informações para serem lidas pelo RNA. A diferença entre as bactérias e os vírus é que este último são moléculas acelulares. Eles precisam invadir uma célula para parasitar essa maquinaria de produção de proteínas e se multiplicar.
JC - Existe uma discussão sobre o vírus ser vivo ou não. Como o senhor o classifica?
João Pessoa - Começo minhas aulas sempre falando sobre isso. Vírus é vivo? Depende do seu conceito de vida. Se vida for a capacidade de uma espécie multiplicar-se, manter-se no planeta e adaptar-se a novos ambientes, nada é mais vivo que o vírus. A gente tem que considerar que este é o planeta dos vírus e não de homens. A grande maioria das espécies deste planeta são constituídas de vírus e não de bactérias ou outros organismos unicelulares, muito menos pluricelulares.
JC - Dizem que o número de tipos de vírus estão na casa de 31 zeros, correto? Onde eles são mais frequentes? Água, terra ou ar?
João Pessoa - Sim, essas são as estimativas. Dizem, ainda, que se colocássemos todos os vírus da Terra em fila indiana, chegaríamos à galáxia mais distante (risos). Como boa parte da vida se concentra em oceanos, isso acontece com eles também. Vírus, todos os dias, infectam em todos os lugares. Eles tiveram uma evolução independente e, se não fossem os vírus, nós não existiríamos. Mais de 30% do genoma humano é viral já que eram os únicos que conseguiam levar informação de um lado a outro para gerar a diversidade dos seres vivos.
JC - O que faz com que o vírus "morra" em determinadas horas e superfícies?
João Pessoa - Um vírus é considerado vivo quando tem a capacidade de infectar o seu hospedeiro. A medida que ele perde alguma estrutura, rompe seu DNA ou perde enzimas, mesmo encontrando sua célula alvo, se ele não consegue infectar é considerado um vírus morto. Isso é comum com o coronavírus, que tem uma estrutura externa de gordura e é muito fácil isso ser retirado por detergente, sabão, álcool... Enfim, assim ele perde a capacidade de infectar.
JC - Falando em coronavírus, eles têm um perfil diferente dos outros vírus?
João Pessoa - De forma geral, eles pertencem à ordem Nidovirales, que compõe a família Coronaviridae. Os Nidovirales têm a característica de produzir as proteínas deles através de RNAs mensageiros pequenos, menores que o seu genoma que é um dos maiores que existe na natureza dentre os vírus RNAs. É uma estratégia de produção diferente. Os coronavírus já existem há muito tempo. Até o ano passado, tínhamos quatro coronavírus humanos que causam 15% dos resfriados que nós temos anualmente. Os dois últimos foram zoonoses, ou seja, o vírus pulou a barreira de espécie. E, agora, muito provavelmente, uma interação entre morcego e pangolim gerou o SARS CoV-2. O problema é quando essas mutações chegam ao homem como hospedeiro.
JC - E quais são as principais diferenças do novo coronavírus em relação aos já conhecidos pela literatura?
João Pessoa - Para ele infectar o homem, ele precisou reconhecer algo na superfície da célula que ele se ligue para conseguir invadir. Não é só ligar, ele tem de ser endocitado, ou seja, entrar dentro. Os outros eram até mais letais, só que a transmissibilidade deles não era simples, precisava de um contato muito próximo, o que tornou possível controlar. Já o novo coronavírus teve uma série de recombinações que aumentou a transmissibilidade através de superfícies, gotículas e partículas aéreas. Além disso, ele tem uma alta eficiência de invadir a célula e produzir partículas virais, muito mais do que os outros.
JC - Como ocorrem as mutações dos vírus?
João Pessoa - Os vírus são muito mutáveis e eles não são todos iguais. Existem os DNAs como, por exemplo, Herpes, que tem pouca taxa de mutação, mas muito maior que uma bactéria, que, por sua vez, é muito maior que um organismo superior. Ou seja, quanto maior o genoma, menos ele altera. Os coronavírus não são os mais mutáveis, pelo tamanho de seu genoma com 30 mil bases.
JC - A herpes, que o senhor citou, é um vírus em estado latente. Há possibilidade do coronavírus ficar incubado como ele?
João Pessoa - Não, nenhuma possibilidade. As infecções são divididas em agudas e persistentes, que é quando o vírus desenvolve uma estratégia para continuar no organismo. A herpes fica em estado latente, já o HIV, o da hepatite C e B são exemplos de infecção persistente. A característica do coronavírus é de RNA de fita única positivo, que tem uma série de famílias especialistas em provocar doença aguda. Eles infectam, produzem o maior número de partículas virais possíveis, vão para outro organismo e você elimina o vírus. Não sabemos se seremos reinfectados, mas quando ele é eliminado, já não circula mais no organismo.
JC - Qual a vantagem de sequenciar o genoma do vírus como fizeram as cientistas brasileiras?
João Pessoa - São duas vantagens. Uma é o que chamamos de epidemiologia molecular, que é para rastrear de onde é este vírus. Porque, para cada lugar que ele vai, ele sofre uma mutação característica daquele local. É por isso que a evolução nas cidades podem ser completamente diferentes no mesmo País. Outro aspecto importante é avaliar se há mutações consideráveis, gerando proteínas diferentes, que possam aumentar ou não sua capacidade de gerar lesão no homem. Precisamos ter informação e conhecer nosso inimigo para combatê-lo.
JC - Com isso seria possível modificá-lo?
João Pessoa - Seguiria as teorias de modificá-los como armas biológicas. Não é impossível fazer isso, mas esse vírus, com certeza, não foi criado, não veio de uma arma biológica. Essa hipótese foi refutada. Mas é possível, sim, com o sequenciamento, modificar para deixá-lo mais leve pensando em uma vacina. Uma das estratégias da fabricação de vacinas é conhecer o vírus e deixá-lo fraco. Hoje, há tecnologia para isso, mas não é algo que se faz do dia para a noite.
JC - Falando sobre isso, como o senhor vê o processo de vacina para combater a Covid-19
João Pessoa - Hoje, a tecnologia é tão grande na produção de vacinas e conhecimento da área imunológica que é possível que as vacinas sejam até melhores do que a infecção natural. Ou seja, a pessoa vacinada pode estar mais protegida do que quem já teve a doença. Agora, é praticamente impossível afirmar, efetivamente, se o vírus, que tem pouco mais de quatro meses, terá resposta imune duradoura ou não. É tudo especulação baseada em outros coronavírus.
JC - Por que está tão difícil encontrar uma cura?
João Pessoa - Cura para doenças virais é algo bem difícil. Quantas doenças virais você conhece? São muitas. E são muito poucas as que têm terapia efetiva, que causa a cura ou diminuição da carga viral. A raiva, por exemplo, mata praticamente 100% dos hospedeiros. A humanidade busca um remédio milagroso, o que nos remete à Idade Média. Estamos buscando algo que vai amenizar a doença e essa discussão é bem complexa. É um dilema muito grande entre o rigor científico, para se fazer um bom experimento, versus a cura que todos desejam. A maioria da população nem ligava para doenças virais. Muitos não conviveram com pessoas com poliomielite ou com a extinta varíola. As pessoas desacreditaram das doenças.
JC - Esse tipo de problema proveniente dos vírus pode voltar a acontecer com qual frequência?
João Pessoa - Apesar de muito da matemática explicar a biologia, a biologia não é matemática. Utilizamos os conceitos para fazer modelos para predizer o que vai acontecer, baseado em evidências. Sabe-se que a cada ano o vírus da gripe modifica-se um pouco, causando gripes sazonais e a formulação de novas vacinas. Agora, com um elemento novo, mesmo com a matemática, não há como prever até que se tenham evidências suficientes.
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O que diz o especialista “A gente tem que considerar que este é um planeta dos vírus e não de homens. A grande maioria de espécies deste planeta é constituída de vírus e não de bactérias ou outros organismos unicelulares, muito menos pluricelulares” “Mais de 30% do genoma humano é viral, já que eram os únicos que conseguiam levar informação de um lado a outro para gerar a diversidade dos seres vivos” “O novo coronavírus teve uma série de recombinações que aumentou a transmissibilidade através de superfícies, gotículas e partículas aéreas. Além disso, ele tem uma alta eficiência em invadir a célula e produzir partículas virais, muito mais do que os outros” A característica do coronavírus é de RNA de fita única positivo, que tem uma série de famílias especialistas em provocar doença aguda. Eles infectam, produzem o maior número de partículas virais possíveis, vão para outro organismo e você elimina o vírus” “É praticamente impossível afirmar, efetivamente, se o vírus, que tem pouco mais de quatro meses, terá resposta imune duradoura ou não” “Cura para doenças virais é algo bem difícil. Quantas doenças virais você conhece? São muitas. E são muito poucas as que têm terapia efetiva que causa a cura ou diminuição da carga viral” |