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Do amargo vem o doce

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Deus criou o jardim do Éden com tudo de bom e colocou nele Adão e Eva. No entanto, no terceiro verso do Gênesis, surge uma serpente. Deus nos colocou nesse mundo físico com tantas coisas boas. No entanto, em dezembro de 2019, surgiu o vírus covid-19. Só Deus sabe por que Ele permitiu - ou colocou - tais criaturas no jardim da Terra. Há tempos tenho quebrado a cabeça para tentar entender o significado disso. Parece que Deus está nos dizendo que o bem e o mal, a ordem e o caos estão sempre presentes, mesmo quando tudo aparenta estar calmo. Talvez Ele queira nos mostrar que o caos está sempre presente e que o bem e a ordem não podem ser totalmente isolados do mal e do caos. Adão e Eva comeram a fruta proibida e perceberam que estavam nus, da mesma forma, o vírus nos ataca e percebemos que estamos nus. O que significa saber que se está nu? Significa ver a si mesmo, ver suas falhas e vulnerabilidades. A nudez significa estar sujeito ao julgamento pela beleza, significa estar desprotegido e fraco na selva da natureza e dos homens.

A história de Caim e Abel, novamente, reflete os dois elementos disseminados na raça humana: um elemento voltado para cima, para o bem, para a ordem e o outro, voltado para baixo, para o mal, para o caos. É verdade que Abel é um herói, mas um herói que é, por fim, derrotado por Caim. Abel pôde agradar a Deus - um feito difícil - mas não conseguiu vencer o mal humano. Caim recorre ao mal para obter o que Deus lhe havia negado e faz isso de forma voluntária, autoconsciente e com maldade premeditada. Se Abel representa o Bem, Caim representa a trindade do submundo, a tríade do mal: a arrogância, a falsidade e o ressentimento. A vida já é sofrida e curta, mas, a capacidade do homem para o mal a piora. De maneira geral, o homem usa esse sofrimento que faz parte da vida, para justificar seu egoísmo e a busca por gratificação imediata. O Rabino Benjamin Blech, em um de seus textos, cita uma das dificuldades enfrentadas pelos israelitas que se aplica a situação pela qual passamos. Vou resumi-la.

Logo depois que os israelitas escaparam da escravidão do Egito e cruzaram o Mar Vermelho, eles chegaram a uma fonte em um local cujo nome era Mará, que em hebraico significa "amargo". Após viajarem por três dias através do deserto sem água, eles estavam sedentos, mas não podiam beber daquela fonte porque a água era amarga. Eles ficaram transtornados. Até aquele momento eles pensavam que Deus estava ao lado deles e que a vida caminharia com facilidade - os mares se abririam sempre que surgissem dificuldades. Mas, de repente, o desafio: por que aquele local amargo estaria ali?

Em resposta às angustiantes queixas dos que estavam ali, Deus disse a Moisés para pegar um galho de uma árvore próxima que era, ela mesma, amarga e que essa era a cura: "pegue o galho da árvore amarga e lance-o nas águas amargas". E elas ficaram doces. O que nos foi ensinado em Mará: a realidade da vida - não é só porque você acredita em Deus que você nunca sofrerá dificuldades. Só porque eles foram beneficiados por uma bênção sobrenatural não significa que, dali em diante, suas vidas seriam um conto de fadas. Problemas são o preço que pagamos pelo direito de viver na Terra.

Mas há uma mensagem ainda mais importante que nos foi dada por Deus no local das águas amargas: há uma maneira de transformar águas amargas em água doce. Por incrível que pareça, trata-se de usar a própria amargura para transformar o ruim em bom. Do "amargo vem o doce" se tornou, séculos depois, a base de uma inovação no processo de cura do ser humano: a invenção das vacinas. Por volta de 1796, os médicos ficaram naturalmente incrédulos quando Edward Jenner propôs, pela primeira vez, injetar uma pequena cultura de vírus - que causava varíola no gado - em um homem saudável, a fim de imunizá-lo contra a varíola. Hoje nós entendemos que a vacina - "o amargo" - injetada em uma pessoa provoca uma reação do sistema imunológico, fazendo com que esse se fortaleça.

Por ora, a quarentena pode muito bem ser entendida como a "vacina" que nos protege. Da mesma forma, a amargura, as dores e sofrimentos que costumamos vivenciar ao longo de nossa existência são as "vacinas" que constroem o nosso sistema imunológico espiritual. As dificuldades superadas nos fazem muito mais fortes. Nós não crescemos nos momentos doces. Ruim está longe de ser o mesmo que amargo. Um remédio pode ser amargo, mas jamais é ruim!

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