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Até tu, chuchu?

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 2 min

Da janela do meu apartamento já acompanhei meia dúzia de panelaços contra Bolsonaro e três salvas de palmas para os profissionais da saúde. Vi o vizinho juntar amigos numa festa particular e também um fusca branco barulhento passar dos 60km/h na rua quase deserta.

O mais próximo que cheguei de um contato humano foi no "salve, seu Orlando" para o porteiro, confinado e mascarado em sua guarita. Diálogo mesmo, só com o cachorro. Loucura? Não. Se ele inventar de responder, começo a me preocupar. Como podem notar, vida agitada nesses quase dois meses de quarentena. Não é fácil, mas necessário. Enquanto nos consideramos presos, reféns das lives, dos livros e do teletrabalho, estamos salvos do novo vírus que ameaça. E isso, vai passar.

Também fiz uma descoberta. Os chuchus pendurados na tela de proteção da janela do 16º andar do prédio ao lado são de plástico. Mera decoração. Não precisa entender muito de chuchu pra saber que, se eles não cresceram nada e nem mudaram de cor todo esse tempo, só podem ser "fake". Tão falsos quanto algumas mensagens que brotam no celular todos os dias. A essa pandemia deram o nome de fake news - notícias falsas. Um novo jeito de rotular uma boa mentira. Não se sabe ao certo quando e onde isso começou, mas o brasileiro parece ter uma quedinha por mentiras e, logo, está no grupo de risco. Basta alguém falar o que você gostaria de ouvir para ganhar o seu respeito, sua torcida, seu voto, seu "encaminhar" no whatsApp. E, como um vírus que se espalha rapidamente, é incalculável o estrago que as fake news podem fazer. Como já fizeram à democracia ao se tornarem marca da mais recente campanha eleitoral, resultando numa CPI em andamento no Congresso.

Em tempos de crise, onde o mundo é visto pelas janelas, as reais e as virtuais, fica pior. Para tentar diminuir a curva das "fakes" que afirmam, por exemplo, que "chá de abacate com hortelã previne coronavírus", o Ministério da Saúde criou site e telefone exclusivo para checagem da informação.

Contra fake news, a verdade é antídoto infalível e disponível gratuitamente na imprensa livre e atuante ou em órgãos responsáveis, como no caso do Ministério da Saúde. Só precisamos de uma injeção de espírito crítico para filtrar as informações antes de sair espalhando. De onde vem isso? Quem diz? Qual a data? É preciso questionar, mesmo que a verdade não seja exatamente como a gente gostaria que fosse.

Que bom seria se o discurso de que é só uma gripezinha ou que abacate com hortelã acaba com um vírus mortal fossem verdade. Mas, não são. É preciso ter cuidado para não cair no conto do chuchu de plástico.

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