Tribuna do Leitor

A força da pandemia

Jeferson Barbosa da Silva - Garoeiro
| Tempo de leitura: 3 min

É mera ilusão alguém achar que seu negócio irá escapar da quebradeira quando ouve dicas, sugestões e falsas soluções de pretensiosos sujeitos desinformados. Essa falácia de abertura de lojas como afronta ao protocolo mundial de amargo isolamento e resguardo é inaceitável perigosa proposta. Nem serve para promover episodicamente a economia nem garante uma volta daquilo que não pode voltar. O vertiginoso desenvolvimento do capitalismo atual, em sua etapa avançada de imperialismo transnacional, produziu um gigantesco emaranhado de meios e formas de produção como jamais imaginado.

Na medida em que a recomendação historicamente acertada da saúde pública impulsiona distanciamento social com ênfase no isolamento domiciliar, para evitar o colapso da rede de atendimentos, murcha, definha-se, tende a zero a atividade econômica. No comércio de atacado e varejo, principalmente. A Organização Internacional do Trabalho, departamento das Nações Unidas, acaba de relatar que mais de 400 milhões de empresas estão quebrando, no mundo, por conta da pandemia. No comércio, são 232 milhões as que já estão condenadas. Warren Buffett, o bilionário americano publicou no Washington Post de 2 de maio de 2020 o relatório trimestral de seu conglomerado gigantesco. O negócio dele está calçado num patrimônio de 73,5 bilhões de dólares - a Berkshire Hathaway - cujo prejuízo causado pela pandemia, até março de 2020, alcançou 67,6% do bolo, ou seja, US $ 49,7 bilhões. Que fazer? Raivosas carreatas, certamente, não! "Você só pode pretender ganhar a guerra se conseguir conhecer o seu inimigo", reza o velho preceito. Ninguém no mundo, até hoje, estudou com profundidade e verdade o capital, melhor do que Karl Marx. John Maynard Keynes, o grande economista britânico nasceu 16 anos depois da publicação de O Capital, de Marx, e em sua obra áurea, de 1936, "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda" nada formula que pudesse remeter a Marx.

Nos meus estudos de há muitos anos atrás, ficou-me a ideia de que para Marx - especialmente no Livro I - dois mais dois é igual a quatro, enquanto que para Keynes, pé no chão com as crises e as quebradeiras gerais, dois mais dois é igual a quatro, mas, pode ser que seja cinco, também. É que ele conseguiu construir toda uma teoria econômica capitalista a partir do conceito de uma única palavra: "propensão". "Esse resultado 4 pode apresentar propensão de ser um três, ou, melhor ainda, um cinco".

Propensão de gastar, ou propensão de poupar. Divergências a parte, para ambos não poderia haver uma economia capitalista, sem o Estado, contra o poder estatal, pilar mestre das relações e dos processos. O que estão tentando, a um custo estratosférico, hoje, no Brasil, é a pretensão de instaurar um regime capitalista tanto quanto possível, sem o Estado, contra a União. Com a imposição de inesperadas rigorosas contingências introduzidas pela pandemia do covid-19, o feitiço vira contra o feiticeiro, e a falta de Estado passa a ser o abismo final. Quem dos que vivem o desespero da quebra foi cobrar da União algum regalo?

Marx e Keynes estariam debochando desses 'economistas' picaretas que se acham, que passaram longo tempo defendendo estado mínimo, livre iniciativa, livre mercado e não têm, agora, mais o que dizer. Sem deixar escapar, entretanto, que perder faz parte do jogo...

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