Tribuna do Leitor

A escola do Diego

Katia de Abreu Fonseca - mãe da Elisa (13), do Diego (6) e da Alice (5).
| Tempo de leitura: 3 min

Escrevi este texto na primeira semana de afastamento social para tentar compreender o que meu filho "entendia" sobre a escola e o quanto o afastamento impactaria sua vida.

Quando uma escola se torna escola?

Perguntei ao meu filho Diego, de 6 anos, que está cursando o 1º ano do ensino fundamental, o que é escola para ele. Ele respondeu: "lugar para gente aprender, ué!" Continuei: e o que não pode faltar em uma escola? E ele responde... "A professora. Se a professora não for, não tem aula. As crianças vão correr pra longe e não vão aprender nada". Estamos aí diante de uma tautologia, ou seja, sem professor não tem aluno, sem aluno não tem professor e sem o interesse de ambos não temos a Escola. Assim, afirmo que o que dá vida à escola são as pessoas.

Escola é sim o lugar de aprender. Meu filho tem razão! Mas espero que no futuro e, breve, compreenda que a escola é lugar de aprender com o outro, aprender para o outro, aprender pelo outro, de aprender junto com o outro. Escola é lugar de aprender de formas variadas. Lugar de aprender o que se estabeleceu como importante para a sobrevivência e manutenção da humanidade, pois a dúvida, a curiosidade e ajudar o outro é a motivação para aprender sempre.

Para que aprendemos? Indaguei o garotinho... e ele respondeu... "Pra ficar esperto" e continuei... e por que precisa ficar esperto? E ele disse: "pra mudar o mundo e fazer um mundo melhor pra outras pessoas".

Pronto... chegamos ao ponto, ao objetivo primeiro da escola. Promover o desenvolvimento do indivíduo a ponto de transformar a sua história e a do outro.

Agora com o objetivo da escola bem claro, temos um desafio em nossas mãos. Nas mãos de quem faz a escola, os professores. Como manter nos alunos o brilho nos olhos, o entusiasmo, o interesse pelo novo, pelo aprender?

Resposta difícil, mas arrisco em, após duas décadas de atuação na educação, responder... Romper com práticas excludentes, que favorece uma pequena parcela de alunos "que aprendem". Romper com o caderno de planejamento de 7, 10, 15 ou 25 anos atrás. Romper com o "saber" porque sou O professor. Romper com a organização "boca nuca" (carteiras enfileiradas uma atrás da outra). Romper com a lousa e giz. Romper com a cópia sem objetivo se o aluno tem o livro em mãos. Romper. Romper. Romper... Romper com o medo do novo e ousar. Ousar em ser inclusivo, no sentido de atender a todos. Ousar em misturar os alunos e fazer grupos produtivos. Ousar em sair da sala e propor a aula em um espaço diferente. Ousar em produzir o próprio livro da vida com os alunos. Ousar em planejar diversas estratégias para partilhar o mesmo conteúdo para alcançar aquele aluno "que não prende". Ousar em criar atividades. Ousar em aprender sobre tecnologia para aproximar-se do contexto de muitos alunos. Ousar. Ousar. Ousar...

E, é nesta perspectiva que este texto, de mãe e professora, apresenta uma forma diferente de olhar e planejar as práticas pedagógicas, de forma que atendam o direito e as necessidades educacionais de todos os alunos. Ajustar os conteúdos estabelecidos para que todos os alunos se apropriem dos conhecimentos e os empreguem de forma adequada e responsável.

Minha esperança é que ressurja em cada professor a escola que o Diego deseja e vive (mesmo que seja na ânsia do início de sua escolarização). Que ele não perca essa compreensão e, que seu desejo se realize... Que tudo o que aprender na escola ele utilize para a melhoria da qualidade de vida de outras pessoas.

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