Velhos velhinhos. Amparados pelo ir e vir de assistentes, colecionavam histórias e risos rasos sob o que se enxergava da vida. Entre uma refeição e outra, dominó, palavras cruzadas. Do bom e velho truco, piscadas comportadas anunciavam, sem hesitações, a evolução do jogo. Um xadrez sob a companhia do sono e da dúvida visitante ao xeque-mate. Na convivência diária dentro de uma clínica geriátrica, entre um pedido e outro, um casal de velhinhos concorria a atenções e razões.
Desdentadamente discutiam tanto quanto se amavam. Choravam e riam ao mesmo tempo, tamanha identificação. Freud implica. Em matrimônios de longa duração, as feições acabam por se tornar semelhantes. E pelo que descobri, por meio de visitas, um deles gostaria de namorar como antigamente. Não demorou muito. Ela, silvando surda pelo nariz, de repente, despede o relógio do braço magro, consultando a claridade do dia. Ele, com músculo de amor, estende-lhe os braços, emprestando a ela zeloso abraço. Dia dos namorados! Para eles, vontades, lembranças independiam de gradação.
Doze de junho. Café da tarde. A cuidadora ziguezagueia todas as acomodações até chegar ao quarto do casal. Respeitosamente bate à porta, chamando-os. Um silêncio insistente grita, interrompendo o sossego satisfeito da funcionária. Ela entra. Camas obedientemente limpas e arrumadas. Janelas abertas. Ninguém no quarto. Teriam fugido? Impossível. A segurança da clínica ganhava protagonismo pela eficiência.
Trinta minutos depois, uma porta de um armário denuncia o paradeiro dos velhinhos. De lá, um casal sorridente acena para a cuidadora. O local era usado para recepcionar as relações do casal. Simbólico ou não, aprendi que a expressão 'sair do armário' é assumir a homossexualidade.
Os velhinhos, para recepcionar suas vontades, entravam no armário e ali, por um tempo, permaneciam. Assim como o amor e a relação sexual, sexo é genuflexo. Alonga espaços, verticaliza tamanhos. Amar dispensa espaço. Requer tempo. Tempo para o casal que enxergou no amor algo compensador para viver. Tempo para um considerar o outro raro, extraordinário, essencial. E tempo não falta para quem passa por essa vida predisposto a amar.