Articulistas

À flor da pele

Claudia Zogheib
| Tempo de leitura: 2 min

O momento atual, em larga escala, permite que relembremos, historicamente, fatos que a humanidade viveu ao longo dos séculos. Essa guerra biológica que estamos enfrentando, coloca-nos em casa, permite-nos, no momento, ter apenas saídas flexibilizadas, muda indefinitivamente o cenário de nossa vida cotidiana e nos coloca num estado emocional de limite conosco e com os outros.

Ao mesmo tempo, estamos preocupados em preservar nossa saúde, não sermos contaminados pelo vírus, apreensivos com quanto tempo levará a descoberta da vacina para nos imunizar. Parece que os acontecimentos sociais, decorrentes e independentes do momento em que vivemos, anunciam que não podemos mais aguentar a setorização que a humanidade, no pior cenário, tenta nos colocar.

A opinião política, a cor da pele, a classe social denunciam o grupo a que pertencemos, setorizam e nos fazem assistir a cenários sangrentos de toda a espécie. Vivemos a realidade da divisão, num momento que viver a união seria necessário. Num mundo de profundas incertezas, não podemos esquecer que os fatos atuais exercem efeitos psíquicos sobre nós, que potencializados pela demanda, não conseguem alcançar qualquer representação - e, portanto, não podem ser evocados -, e muito menos representados pela mente.

A insuficiência de simbolização a que estamos expostos, com a avalanche dos acontecimentos, traz danos inimagináveis e, por que não dizer, compromete a nossa saúde mental. Em todas as manifestações, somos nós que estamos sofrendo. Sem divisão, as consequências vêm para todos. Todos os "eus" estão vivendo essa realidade. Ficamos à flor da pele e a tranquilidade para articular pensamentos e digerir sentimentos fica em standby. Estamos órfãos de ideais genuínos, que visem uma democracia para todos no mais profundo sentido da palavra.

Qualquer vivência será experimentada como traumática, quando nosso sistema de representações psíquicas não consegue captá-las, dar sentido ou torná-las simbólicas. Do ponto de vista da experiência que vivemos neste momento, torna-se evidente que não se trata de observar e interpretar o que se passa. É necessário viver e sobreviver ao intenso campo emocional que se forma ao nosso redor.

E a pergunta que fica é: será que daremos conta de tudo isso? Em tempo: este texto foi escrito ao som da música "O mundo melhor de Pixinguinha", Evaldo Gouveia.

A autora é psicóloga clínica, psicanalista, especialista pela USP - Depto. de Psicologia

 

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