Ao sugerir que pessoas que vivem nas ruas têm má vontade em relação aos serviços oferecidos pelo município, são criminosos, sujos e indecentes, a vereadora Chiara Ranieri, em discurso na Câmara Municipal de Bauru, falou mais sobre si mesma e suas concepções de mundo do que sobre as pessoas que critica. A rua é espaço livre; não deveria ser a única opção para viver, mas, para um contingente cada vez maior de pessoas, impossibilitadas pela lógica da sociedade de usufruir da riqueza que ela produz, parece ser.
Essa questão social é complexa: envolve violações de direitos humanos, racismo estrutural e, agora, a pandemia, mas de forma nenhuma a crise sanitária pode ser desculpa para ações higienistas baseadas em uma visão autoritária e em preconceitos. Se os serviços públicos oferecidos a essa população são rejeitados, como disse a vereadora, eles é que precisam ser continuamente atualizados, revistos e ajustados. Sem dúvida há, em Bauru, trabalhadores desses serviços públicos comprometidos com o bem-estar da população sem teto, assim como há protocolos técnico-científicos para a realização desses cuidados que respeitam os direitos das pessoas que, infelizmente, estão nessa condição.
É lamentável que o discurso da vereadora coloque a culpa, dessa situação social, nas vítimas e na parte da população que as acolhe; e ainda instigue ações que desumanizam e violentam. Aquelas pessoas que exercem solidariedade, amenizando o sofrimento da população de rua, agem bem. O poder público não pode realizar atos discriminatórios; deve respeitar os direitos e a dignidade de todos. Somente um debate amplo entre o poder público, instituições especializadas e população, uma cidade pode enfrentar seriamente essa complexa questão social.