Na largada da temporada mais estranha dos 70 anos da Fórmula 1, Lewis Hamilton sai em busca de ser o devorador definitivo de recordes. Pode igualar o hepta de Michael Schumacher e passar o alemão em pódios, vitórias e, um pouco mais improvável neste ano, em voltas na liderança. Porém, tem pela frente um campeonato atípico, condensado e intenso. Um Mundial profundamente impactado pela pandemia de coronavírus, que deve ter menos GPs do que os recentes e mudanças importantes na estrutura dos padocks. Eu vou torcer para que Hamilton quebre todas estas marcas. Sou admirador do inglês. E se tem uma quesito que ele ganha com sobras de Schumacher é no carisma. Além disso, se posiciona e defende causas nobres e justas. Quero ver a "flecha negra", símbolo da Mercedes, que abandona o seu tradicional prata momentaneamente, na luta contra o racismo, puxando a fila em todas as corridas do ano.
Na iminência da quebra dos recordes, abre-se a discussão se Hamilton seria o melhor de todos os tempos. Não o vejo como o maior piloto da história, mas certamente o tempo vai se encarregar de fazer com que o elejam como tal. A comparação com Schumacher, pelos números impressionantes de ambos, é inevitável. Na minha opinião, como estatísticas não são os únicos parâmetros para a análise, Hamilton já é superior a Schumacher. Eu considero o britânico mais piloto do que o alemão, que também foi um fora de série.
Entretanto, Hamilton superou adversários mais fortes para chegar aos seus seis canecos. Fernando Alonso e Sebastian Vettel são melhores do que Mika Hakkinen. Hamilton teve um companheiro de equipe, Nico Rosberg, bem menos conformado do que Rubens Barrichello e muito melhor do que Eddie Irvine. Tanto que ganhou um Mundial. Valteri Bottas também não é nenhum resignado. Sem contar que, ainda iniciante, Hamilton fez uma dupla explosiva com Alonso, então campeão e principal nome da F1, e não se intimidou, terminando o campeonato na frente do espanhol. Além disso, encarou concorrentes arrojados, como Max Verstappen, e técnicos, como Kimi Raikkonen.
Sem adversário à altura
A morte de Ayrton Senna privou Schumacher e os fãs de F1 daquele que seria o duelo épico da carreira do alemão. Sobraram como rivais caras como Damon Hill e Jacques Villeneuve, além do já citado Hakkinen. David Coulthard, Giancarlo Fisichella, Juan Pablo Montoya? Sem chance. Mais no finalzinho de sua hegemonia, aí sim, surge Alonso para incomodá-lo e superá-lo. Mas o pior da "era Schumacher" foi tornar a categoria absolutamente chata. Eram as vitórias de uma estratégia só, com voltas "voadoras" para garantir a posição no retorno da parada nos boxes. O jogo de equipe levado ao seu ápice, beirando a antidesportividade. Hamilton mostra muito mais recursos e estratagemas para obter suas vitórias. Uma fase bem mais agradável de assistir às provas.
No Top 6
Independentemente dos resultados desta temporada, Hamilton figura no meu Top 6 da Fórmula 1. Ranqueio apenas pilotos que vi em ação. O britânico tem a companhia de monstros, como Niki Lauda e Alain Prost, que foram protagonistas na era áurea da F1, os anos 80, com motores turbo e várias equipes competitivas. Não por acaso listo seis gênios aqui, para ficarmos no sistema de pontuação tradicional desta fase da F1, quando até os coadjuvantes eram pilotos diferenciados e melhores do que muitos campeões de outros ciclos. Uma época de uma categoria mais selvagem e perigosa, o último vestígio de romantismo, da total rivalidade. Antagonismos implacáveis.
Ainda entre os seis melhores, o próprio Schumacher, herdeiro imediato daquelas feras. O alemão era um predador na pista, às vezes indo além do ponto, mas carregou a chama dos gigantes que passaram. Hamilton bebe nesta fonte. Na minha classificação, Nelson Piquet fecha o Top 6, tendo Schumacher em quinto. Mais à frente, sem definição de colocações, os outros três citados. Na liderança, mesma posição onde sua carreira terminou, Ayrton Senna, mais que um fenômeno, um piloto que tinha habilidades praticamente sobrenaturais. Era a síntese da excelência. Intrépido, técnico, determinado, dedicado e talentoso. Não vi ninguém igualar o que ele fez nas pistas.