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Com a palavra, Felipão

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 2 min

Um dos segredos mais bem guardados da nossa história recente foi desenterrado há poucos dias. Felipão, o técnico do penta de 2002 e do 7 a 1 de 2014, revelou o que teria dito aos jogadores da Seleção no intervalo daquele que foi o maior vexame no país do futebol. Mineirão, terça-feira, 8 de julho de 2014. Após os 45 minutos iniciais daquela semifinal, o Brasil foi para o vestiário perdendo por 5 a 0 da Alemanha, e coube a Luiz Felipe Scolari falar alguma coisa.

Mas, falar o quê?

Carimbando nossa incapacidade, a resposta de uma pergunta nunca feita no Brasil veio em inglês numa entrevista ao site "Yellow and Green Football", que cobre futebol brasileiro. Felipão saiu da Seleção, foi campeão com o Palmeiras, deu inúmeras entrevistas e, seis anos depois, parece que seguimos sem falar a mesma língua.

Pois bem, a resposta chegou: "No intervalo, eu disse: Assumam posições defensivas de organização tática, com calma, porque não é possível virar um 5 a 0 em um jogo internacional. Posicionamentos, correções, vamos ver se conseguimos deixar mais equilibrado. Já foi. Infelizmente, aconteceu. Todos têm que assumir a sua responsabilidade e é isso." No segundo tempo daquele jogo, muito mais pelo "pé no freio" dos alemães do que por alguma organização tática da Seleção, o resultado foi "só" 2 a 1.

Além de falar muito e ouvir pouco, brasileiro também tem mania de comparar tudo com futebol. A gente explica a vida em 90 minutos. Foi só o primeiro semestre de 2020 terminar para um meme (outra especialidade nossa) pular no celular: "A última vez que vi um primeiro tempo tão ruim, estava 5 a 0 para a Alemanha."

Não creio que o problema seja a comparação com o futebol. Duro mesmo é a incrível capacidade que temos de não saber perder e muito menos tirar lições das derrotas. Entramos em campo achando que a qualquer momento vamos correr para o abraço enquanto, gol após gol, o placar aumenta e o vexame se constrói.

São mais de 65 mil mortos e mais de 1,6 milhão de infectados na pandemia da Covid-19. Se nosso histórico de atleta não ajudou contra a Alemanha, um inimigo conhecido, não vai ser agora que servirá para alguma coisa. Arrogância e insensibilidade não ajudam e o que está em jogo agora são vidas.

Passou da hora de aprendermos que não é negando os números que alguém vai se livrar da culpa. Como disse Felipão naquele intervalo, "todos têm que assumir a sua responsabilidade". E é isso.

O autor é jornalista, colabora com Opinião.

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