Acordou às seis da manhã, olhou no espelho e viu outro ele, cabeludo, olhos sonolentos, felizes, ia voltar a trabalhar! Tomou café, continuava preto, às vezes, doce, outras, amargo, metáfora da vida!
Saiu com o carro da garagem, não cumprimentou os vizinhos, morava no bairro há somente vinte anos, não conhecia ninguém que merecesse o respeito do seu alguém!
Parou no primeiro semáforo ou sinaleiro, não sabia mais, olhou para frente, sem olhar para os lados, não havia ninguém digno de um bom dia, que, aliás, somente ele teria!
Continuava no semáforo olhando para frente, a pensar nos tempos atrás! Tinha parado em cima da faixa para segurança, uma idosa chamou-lhe a atenção, xingou-a e ficou frustrado de ela ter sobrevivido ao coronavírus: como que essa doença de velho deixou velho vivo?
Parou em frente à escola, os filhos desceram, não o beijaram como sempre, pareciam acordados, nem um adeus disseram, passaram pelo porteiro da escola, conheciam-no há mais de cinco anos, mas ainda não merecia um bom dia!
Saiu com o carro, os pneus a cantar "Epitáfio", dos Titãs, não concordava com a letra, ele, somente ele, tinha feito, não queria saber do acaso protegê-lo, ele era, ele é! Chegou ao prédio em que trabalhava, jogou a chave do veículo para o empregado do estacionamento, entrou no escritório, todos de máscara o exaltaram e curvaram-se.
Ele não precisava de máscara, era o herói, e disse a todos que nunca mais aconteceria uma pandemia, pois ele tinha chamado a atenção de Deus, que lhe prometera nunca mais dar-lhe prejuízos financeiros e que para ele, avareza não era um pecado, era uma dádiva!
E ainda disse a todos que conversara com líderes do governo e que O Novo Normal seria executado, morto em praça pública com ou sem estátuas, e que tudo voltaria ao velho normal, sem igual diferente, somente igual, igual!
O autor é o Professor Sinuhe - “Não sabendo mais o que é normal!”.