Meu pai é descendente de italianos e minha mãe, de portugueses. Atualmente, ela mesma é portuguesa, como eu. Ele raramente fala do passado. Quando o faz, entretanto, encanta. Conta os fatos com minúcias que nos fazem voltar no tempo.
Ontem encetamos uma conversa que, para mim, tornou-se inesquecível. Falava de seus parentes que residiam próximo à sua casa de infância, em São Paulo, elencando o nome de seus tios. Nomes típicos de italianos. Nunca ouvi meu pai falar sobre alemães na família. A conversa reforçava isso. Indaguei, então, algo que sempre me intrigou: "Se seus ascendentes são italianos, de onde vem o sobrenome 'Schubert'?"
Contou-me que sua avó materna, Dolores, ficou viúva muito cedo, com os dois filhos pequeninos - seu pai e sua tia. Um homem de ofício duvidoso, da região de São Simão, perto de Ribeirão Preto, onde moravam, interessado por minha bisavó paterna, desejava levá-la embora.
Um austríaco que, a princípio, tinha o intuito de proteger a viúva Dolores, encantou-se por ela e a desposou. Com ela viveu maritalmente, concedendo-lhe o sobrenome, o que foi estendido aos filhinhos da mesma, embora já registrados pelo falecido pai. O estrangeiro e Dolores não tiveram mais filhos.
Assim, meu avô paterno ganhou o nome de um homem admirável por quem foi criado - segundo meu pai, ao revés dos homens da época que entretinham-se com as lides do campo, era mais intelectualizado.
E o sobrenome do Sr. Schubert perdura em nossa família até os dias de hoje. Sabendo que, por um ato de proteção e amor, Sr. Schubert desposou Dolores, minha bisavó paterna, e criou seus filhinhos - meu avô e minha tia avó - como um verdadeiro pai, assino "Schubert" com mais orgulho que antes.