Tribuna do Leitor

Educação ambiental em tempos difíceis

José Misael Ferreira do Vale
| Tempo de leitura: 3 min

Recentemente assisti a um documentário na televisão aberta que me fez recordar do tempo em que trabalhei como docente nos cursos de pós-graduação na Unesp de Marília e Bauru, oportunidade na qual utilizei, experimentalmente, vídeos em aulas com o intuito de articular o ensino a uma cultura iconosférica em que a imagem é hegemônica, quando não espetacular, hoje presente, em filmes com recursos imagéticos inimagináveis na década de 40 e 50 do século passado quando cursei o primário e o ginásio.

Lembrei-me dos tempos de escola básica formadora quando entrei em contato com o ensino escolar de Geografia e História, dois componentes curriculares importantes na formação do aluno. No ensino primário de outrora, como escrevi alhures, o Programa de Ensino de 1946, propunha o ensino das ferrovias do Estado de São Paulo com a indicação das cidades servidas pelo meio de transporte sem o ensino concomitante da História a evidenciar a importância do trem de carga e passageiros para o desenvolvimento econômico e social das regiões interioranas interrompido pela Política de Desenvolvimento dos "50 anos em 5 anos", da década de sessenta do século passado, que abriu a economia ao capital estrangeiro e investiu pesado na construção de rodovias para diversos pontos do interior de São Paulo, ao minimizar a ferrovia e investir no transporte rodoviário articulado à indústria automobilística.

Nem de longe culpo o professor pelo ensino pobre para o pobre porque os meios didáticos não contavam com instrumentos facilitadores à condução do ensino presencial. Hoje a situação é outra. Assuntos importantes contam com a possibilidade real da comunicação imagética. A televisão pode criar produtos que aliam a imagem sensorial ao conhecimento num processo simbiótico interessante através de filmes e vídeo cheios de vida num espaço físico e social, a unir o conceitual ao sensorial emotivo.

Vou a exemplo para esclarecer a relação dialética entre o olhar curioso do conhecimento em relação à imagem sensorial poderosa. Quando cursei o ginásio no início da década de 50 do século passado perguntei ao professor de Geografia sobre o Brasil Central. Na ocasião havia lido na revista "O Cruzeiro" reportagem sobre a região, com a fala sempre interessante dos irmãos Villas-Boas, sobre o Xingu e a Serra do Roncador. Fiquei na ocasião curioso com o nome da Serra. Na época, a Geografia ensinada era a Geografia Física. O uso do Atlas era frequente. Pouco se falava sobre a ocupação humana do espaço social (o "fluxo", movimento da população) articulado dialeticamente ao espaço físico (relativamente "fixo", na distinção de espaço proposta por Milton Santos).

Não é que a Televisão na sexta-feira próxima passada fez reportagem sobre a região da Serra do Roncador e eu me entusiasmei com o espaço físico e social da região que sempre quis visitar. Não importa que a direção do assunto tenha seu alvo mercadológico porque a qualidade técnica da imagem me supriu de antigas necessidades intelectuais e emocionais. Aos oitenta e dois anos de idade aprendi muito vendo e sentindo a natureza humana e física da região documentada. A juventude de hoje tem a oportunidade ímpar de sentir e conhecer a beleza natural e humana do Brasil. A escola pública de hoje poderia oferecer esse brinde aos seus alunos. E, ao depois, discutir, refletir, avaliar individual e coletivamente muitas questões sobre o fantástico e desconhecido Brasil.

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