Foi com sorriso no rosto, escondido pela máscara, mas transmitido pelo olhar, que, aos 95 anos, Demofalo Antonio Paulúcio recebeu alta do Hospital Estadual (HE), depois de vencer a batalha contra a Covid-19 (veja o vídeo no www.jcnet.com.br). Assim como ele, muitos "superidosos", que ultrapassaram a barreira dos 90 anos, têm demonstrado que, mesmo para quem já viveu muito, a infecção pelo novo coronavírus pode ser superada.
Em Bauru, já são 12 moradores nonagenários efetivamente curados da Covid-19 - o que corresponde a um índice de 60% do total de infectados nesta faixa etária - e cinco ainda seguem em recuperação. Três outros morreram.
A resistência desse público ao novo coronavírus está sendo investigada pelo Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, em São Paulo, em estudo que busca detectar a influência de fatores genéticos na variabilidade de formas com que a doença se desenvolve (leia mais abaixo).
A intenção é entender como pessoas como Demofalo sequer precisam de internação em UTI enquanto outras mais jovens, até mesmo sem comorbidades, morrem em decorrência da Covid-19. Morador de Pirajuí (58 quilômetros de Bauru), Demofalo já está em casa, com saúde. Ele foi internado no Hospital Estadual de Bauru no dia 24 de maio, depois de acordar com febre, falta de ar e dor nas costas.
Por conta da idade e do fato de ter feito uma cirurgia recente para drenar urina da bexiga, ficou em observação, em leito de enfermaria, até o dia 28 daquele mês, quando recebeu alta e o resultado do exame, que confirmou a infecção pelo novo coronavírus. "Ele é muito lúcido e estava reclamando de ficar no hospital. Então, por orientação do hospital, minhas duas irmãs e eu passamos a cuidar dele em casa", comenta a filha Bete Paulúcio Bueno, 56 anos.
BOA EVOLUÇÃO
Mesmo com o contato diário, nem ela, nem as irmãs apresentaram qualquer sintoma da doença, o que reforça a possibilidade de componentes genéticos influenciarem o impacto do vírus em cada organismo. "Não fizemos o teste, mas ninguém sentiu nada. Por precaução, ficamos juntas, em isolamento, por duas semanas, enquanto cuidávamos do meu pai", acrescenta.
Bete conta que Demofalo sempre foi "um homem de muita saúde" e o fato de ele não ser obeso ou ter doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e cardiopatia, também contribuiu para a boa evolução de seu quadro de saúde. Coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do HE, o médico infectologista Lucas Marques da Costa Alves conta que a unidade chegou a receber pacientes centenários que também conseguiram se recuperar da Covid-19.
A maioria dos sobreviventes tinha pouca ou nenhuma comorbidade e permaneceu em leito de enfermaria, sem necessidade de intubação. "Quanto mais doenças associadas, maior o risco de o paciente ter a forma grave da doença - e isso vale para qualquer idade. Normalmente, o paciente que vai a óbito já chega no hospital com uma hipertensão descontrolada ou o coração já não respondendo tão bem. É aquele paciente que toma medicação para essas doenças, mas, quando é acometido por um processo infeccioso, sofre este desequilíbrio", frisa.