Articulistas

Para um pai com uma flor

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

O ginecologista cumprimenta minha ansiedade. Nasce um menino! Inaugura-se um pai. Seus olhos, desejosos de curiosidades, acompanharão cores. Por, curiosidade, meterá o nariz onde não será chamado. Conhecerás o cheiro. Sua língua discorrerá desnecessidades.

Conhecerás o silêncio. Seu corpo, como uma casa, poderá recepcionar visitas. Conhecerás o sexo. Seu coração, tal qual morada, terá (in)desejável inquilino. Conhecerás o amor. Seus pensamentos, aves que sobrevoarão sua mente, podendo adotá-la como ninho. Conhecerás o livre-arbítrio e suas consequências.

Posso não impedir o seu medo de escuro, é claro. Posso não evitar suas quedas na bicicleta, quando sua maior vontade será ficar em pé com a sua autoestima. Posso não evitar que fique indeciso em qual curso superior escolher, mas saiba ser superior às inconstâncias do mercado.

Posso não evitar que chore por amor, entretanto saiba que o amor de um pai por um filho é incondicional. Posso não conter todas essas ocorrências, porém ao lado de um pai, passa-se com mais segurança. Por isso, inexiste felicidade maior o filho imprimir em suas realizações a alegria dada ao pai por nascer.

Ao meu pai, homem de feliz exclamação, que ama sorrindo por sorrir com amor, aos que amam em silêncio, com os olhos, jamais com o pensamento, parabéns.

Às ligações não atendidas, do filho fora de área, desconectado com o pai, sem sinal de responsabilidade, desinstalado do aplicativo família. Ao que conta as horas nas demoras. Ao que chora, enquanto o filho chora de rir. Ao que insiste do filho que desiste. Ao pai amanhecido do filho notívago. Ao pai que lembra o que o filho esquece. Ao pai dotado de amor adotivo. Ao pai, ao filho, amém.

Aos saudosos pais, avós, gratidão de ter vivido com alguém tão especial. Que o amou na primeira pessoa do plural, mesmo com a vida escorrendo em rugas. Que o alertou do amor mentira das flores de plástico.

Que lhe sorria, embora carregasse no peito um jardim prejudicado de podas incessantes. De um justo coração comprometido com a verdade. Quando lhe deu um nome, em seu batismo, o abençoou. Mostrou-lhe o sol, a lua, as estrelas. Eternizou-lhe lembranças, gestos, tal qual a orquídea ao pedir à arvore espaço do seu tronco, paga-lhe em beleza desfolhável.

O autor é membro da Academia Bauruense de Letras e autor de artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa

Comentários

Comentários