Em uma inauguração de um grande escritório de advocacia, após horas regadas a whisky e vinhos, as pessoas entraram naquela fase em que as discussões se tornam as mais aleatórias e nonsense imagináveis. Com a profundidade adquirida em almanaques ou revistas de curiosidades, doutores de outra área (direito) se pegavam a discutir banalidades com ênfase, em tom elevado, apenas para "marcar posição".
Em determinado momento, um convidado, bastante alcoolizado, se achegando ao grupo de debatedores, dirigiu-se ao anfitrião com voz pastosa: - Afinal, Doutor... o que mudou na vida do senhor a morte dos dinossauros?
Diante do olhar atônito de todos frente à pergunta, cai na gargalhada... Me dei conta de que após tanta besteira que havia sido dita com ares de erudição, aquele bêbado era a única pessoa lúcida o suficiente para desafiá-los e trazê-los à realidade...
Hoje, quando vejo pessoas discutindo sobre a "ameaça comunista", sobre Che Guevara, Cuba, Venezuela, falando com saudosismo sobre a "volta dos militares", fico torcendo para que apareça um ébrio para reconduzi-los ao presente...
Chego à conclusão de que existem dois tipos de utopias: as utopias juvenis - em que se acredita que o comunismo seja a solução para a humanidade... E a utopia senil - quando pessoas de cabeça arcaica acreditam que a volta ao passado vai nos levar ao progresso...
Os jovens estão em fase de descobertas e desafios e é natural se encantarem com essas utopias, afinal, não conhecem com profundidade sua inaplicabilidade... Da mesma forma, é natural que algumas pessoas, chegando a uma certa idade, diante da proximidade da morte, se deem conta da irrelevância de suas ideias ou de suas vidas... Isso as faz se agarrarem ao passado e transforma-lo, na imaginação, em um período de perfeição...
Discutindo com paixão, deixam de dialogar com um mínimo de coerência para reconhecer que regimes antidemocráticos e nocivos ao povo não são privilégio da esquerda ou da direita, mas sim, a marca registrada de toda extrema esquerda e toda extrema direita...
Atrelados ao sonho de uma revolução ou presos às teias de aranha do passado, essas pessoas perderam o contato com a realidade, com o presente, com as mazelas e potencialidades de nosso país - sepultando no túmulo da vaidade, qualquer possibilidade de mudança...
E eu, assistindo esses discursos vazios, me sinto tentado a tomar uma boa garrafa de vinho e perguntar: - Afinal, Doutor... o que mudou na vida do senhor a morte dos dinossauros?