Tribuna do Leitor

Ao papai com carinho

Carlos R. Ticiano
| Tempo de leitura: 2 min

Apesar de o tempo agir como um apagador em nossa memória, ainda trago muitas lembranças que reportam à minha infância, com relação à presença de papai. Embora algumas imagens, como num velho filme, tenham borrado e ficado embaçadas e indefinidas.

Apesar da passagem do tempo, muitas lembranças ficaram guardadas intactas, a ponto de voltarem como num flashback. Lembro-me da época, em que devia ter uns cinco anos de idade, pelo fato de papai chegar mais cedo do trabalho no sábado, perguntava pra mamãe - Hoje é sábado?

Por trabalhar meio expediente no sábado, papai passava em uma confeitaria e comprava vários e deliciosos doces. No bazar, escolhia um brinquedo e mandava embrulhar para presente. O prato com os doces, ele deixava com a mamãe e a caixa entrega pra mim. Que sempre tentava, mas nunca conseguia adivinhar o brinquedo, mesmo diante de inúmeras dicas.

Enquanto papai almoçava, antes de começar a saborear os doces, abria o mais rápido possível a caixa, para descobrir o brinquedo que ganhara. Sempre vinham modelos diferentes, a ponto de irem formando uma coleção de automóveis, tratores, caminhões, aviões, navios. Na época do Natal, junto com mamãe, costumava levar-me à noite para ver as lojas do comércio decoradas com os arranjos natalinos. O problema é quando avistava o Papai Noel, com medo do "bom velhinho", começa a chorar.

Recordo-me do dia em que ele chegou com uma caixa enorme. Desembrulho e para minha surpresa, era um caminhão de madeira, todo colorido, quase do meu tamanho. Pegou-me pelos braços, sentou-me na carroceria e saiu empurrando o caminhão pelo quintal. Numa divertida e agradável brincadeira.

O tempo passou e as brincadeiras se tornaram outras. Mas papai sempre estava por perto, às vezes me ensinando, às vezes brincando comigo. O divertimento agora era jogar bola, empinar pipa, jogar pião, andar de bicicleta. Aos domingos, depois da missa, costumava ir à banca de jornal e me levava consigo. Enquanto eu escolhia revistas de histórias em quadrinhos, ele procurava pelo Jornal da Cidade e pelo Jornal A Gazeta Esportiva.

Homem trabalhador, seu Nelson sempre exerceu a profissão de sapateiro, até conquistar sua própria sapataria. Fumante inveterado, costumava levantar cedo, coar um cafezinho e fazer "boca de pito", antes de fumar seu cigarrinho. De porte alto, não dispensava uma brilhantina para pentear os cabelos, andava ligeiro e a passos largos e gostava de uma boa conversa. Seu Nelson era uma pessoa divertida, disposta, sorridente e alegre. Para surpresa de todos, num mês de dezembro, próximo do Natal, ele partiu em definitivo, deixando apenas a saudade em seu lugar.

Apesar do tempo, ainda recordo-me do barulho do portão se abrindo, do seu assobio, da sua voz, de um afago e um abraço paterno.

A sua bênção, papai!

Feliz Dia dos Pais!...

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