Acabo de ler "O fim e o começo", de Bruno Sanches. Não sou crítico literário (aliás, em relação aos críticos em geral, Millôr Fernandes definia como "impotentes que fazem de tudo pra brochar os outros. Quando não conseguem isso, pelo menos evita que tenham orgasmo"). Sou apenas um leitor, apaixonado pelos livros.
O livro de contos, escrito de forma suave e criativa, faz de sua leitura uma saborosa viagem por personagens do cotidiano, suas peripécias e desventuras; prende o leitor e o deixa curioso para o desfecho, nunca presumido ou óbvio, outro grande mérito da obra.
Também é importante destacar a utilização de pitadas de crônica, em cada conto. A crônica, que muitos, preconceituosamente, consideram um gênero menor, sempre me encantou e abriu para mim, ainda na juventude, as portas da literatura, através dos textos de Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, entre outros.
Quando encarei o primeiro conto e um encantamento me acometeu, pairou uma dúvida sobre o livro: deverei lê-lo sôfrego, numa tarde chuvosa de sábado, enrolado num cobertor, tendo como companhia um enorme saco de pipocas? ou como se aprecia um delicioso bombom recheado de trufas, um a cada dia, sentindo cada detalhe? Optei pela segunda hipótese e saboreei cada conto, naquele momento sereno que deve anteceder a mais uma noite de sono.
Soma-se a todas estas qualidades o primoroso trabalho da Editora Mireveja, sempre atenta aos menores detalhes, para fazer de cada obra, um verdadeiro relicário para seu conteúdo. De fato, o livro de Bruno Sanches é um grande acontecimento e, ao encerrar a leitura do último conto, ficou no ar a sensação de "quero mais", como se estivesse diante de um prato, já vazio, de uma arrebatadora pizza quatro queijos e a pergunta: quanto teremos outro?