Articulistas

A voz que nos chama

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Fundamental é que saibamos nos ouvir. Entre as muitas vozes que nascem dentro de nós e que nos pedem audiência, uma delas merece atenção vital. É a voz da vocação que, se ouvida e exercitada, pode nos levar a uma vida plena de realizações. Ao atendermos a esse chamado interior, tornamo-nos seres vocacionados, o que significa vivenciar uma identidade prazerosa entre o que somos e o que fazemos. É bem o caso desse trompetista que vejo, mentalmente, curvado sobre si mesmo, externando, com o sopro da alma, a linguagem única e intraduzível de um improviso jazístico. Momento singular e realizador é este em que aquilo que somos se funde com aquilo que fazemos. Afortunados, todos os artistas que põem tudo o que são naquilo que fazem. Afortunados, todos os demais profissionais que fazem do trabalho sua razão de viver.

Bem diferente do trabalho ganha-pão é o trabalho vocacionado. Nascido da alma, o impulso criador transforma-se em ato de profunda realização pessoal. O vocacionado é inteiramente feliz naquilo que faz. Já o trabalho ganha-pão, exercido sobre a pressão da necessidade, não propicia ao trabalhador sentir-se presente na coisa produzida. Trabalha apenas para obter remuneração e não, o prazer realizador. Foi o que disse Marx ao falar do trabalho alienante: "O trabalhador quando está trabalhando, ele não se sente ele mesmo". Nenhum ato de autoexpressão existe no trabalho ganha-pão, nenhum sinal de singularidade fica nele impresso. O trabalhador é um, o trabalho produzido é outro, nada existe que os una.

Todo trabalho é dignificante, mas a despeito dessa obviedade, é preciso reconhecer a nobreza do trabalho vocacionado, como aquele que dá ao outro o melhor de si. Profissionais da saúde, expostos ao risco de contágio e de morte, se entregam ao trabalho de salvar vidas. Nos laboratórios, cientistas exaustos ignoram o relógio em busca de respostas urgentes para os males que nos acometem. Também o militante político, longe da polarização fanática, trabalha por uma sociedade mais justa. E o que dizer do pedreiro, que com alegria põe tijolo sobre tijolo no seu ato de construção. O trabalhador vocacionado, seja ele quem for, põe amor naquilo que faz, e, em retribuição, recebe saúde na alma. Eis um bom caminho de ser feliz.

A lógica do sistema capitalista, contudo, caminha em sentido oposto. Não lhe interessa formar cidadãos ou seres empáticos, mas pessoas individualistas e, sobretudo, consumistas. Sua estratégia perversa nada valoriza o trabalho vocacionado, nenhum interesse há pelos valores da fraternidade. Interessa-lhes, isso sim, disseminar o vírus do egocentrismo competitivo que faz João humilhar Pedro comprando o que ele não pode comprar. Na lógica do sistema neoliberal quanto mais competitivos formos, quanto mais afastados estivermos uns dos outros, quanto mais centrados estivermos em nós mesmos, mais consumistas seremos. E daí, ingenuamente, acreditaremos que a mercadoria comprada cuidará de nos fazer mais admirados por todos, mostrando o tamanho do nosso valor. Ledo engano.

 O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais 

 

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