Nestes tempos bicudos que estamos atravessando, com tantas informações desencontradas, tantas fake news, tantos preceitos a serem cumpridos, ficamos desnorteados. Saia de máscara, mas fique em casa se não precisar sair, lave as mãos com álcool gel, verifique se é álcool 70%, evite aglomerações e tantas outras regrinhas meio malucas que nos põem meio zonzos.
Como uma coisa puxa outra, lembrei-me de uma passagem do Evangelho, que poderá causar até uma certa confusão em algumas cabecinhas obnubiladas e esquecidas de parábolas e metáforas usadas na época de Jesus.
A maioria dos leitores não sabe do que estou falando nem do que vou falar, porque, na verdade, poucos são os interessados na leitura da Bíblia. Preferimos, na maior parte das vezes, ler uma revista de entretenimento ou um romance brega em vez de pegar a Bíblia na mão. Mas, quem sou eu para ficar dando conselho? Nem é hora para isso. Pretendo lembrar uma passagem do Evangelho na qual são discutidas algumas tradições da época.
Bem, vou lá para Mat.15, v.1 a 20, quando alguns fariseus e escribas chegaram a Jesus e disseram: "Por que os teus discípulos violam a lei dos antigos? Pois que não lavam as mãos quando comem". Mansamente, Jesus responde: "E vós por que violais o mandamento de Deus por causa de vossa tradição? Com efeito, Deus disse: Honra pai e mãe e Aquele que maldisser pai ou mãe deve morrer. Vós, porém, dizeis: Aquele que disser 'Aquilo que de mim poderias receber foi consagrado a Deus', esse não está obrigado a honrar pai e mãe. E assim, invalidaste a Palavra de Deus por causa de vossa tradição. Hipócritas! Bem profetizou Isaias a vosso respeito quando disse: Este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe de mim. Em vão me prestam culto, pois o que ensinam são mandamentos humanos."
Lendo assim a Bíblia, sem entender seu verdadeiro sentido, podemos cair numa cilada. Acontece que Jesus encarou a questão mais geral da impureza que a lei atribuía a certos alimentos e ensinou a postergar a impureza legal à impureza moral, a única que realmente importava. Tanto é que continuou ensinando sobre o puro e o impuro. E como sei que poucos leem a Bíblia como deveriam, com a licença do leitor, vou continuar.
A seguir, Jesus chama a multidão e lhe diz: "Ouvi e entendei! Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isto sim o torna impuro." Os discípulos disseram então a Jesus: "Sabes que os fariseus, ao ouvirem o que disseste, ficaram escandalizados?" Aqui, uma vez mais, surge uma errada interpretação das palavras de Jesus, que absolutamente não se abala e responde: "Toda planta que não foi plantada por meu Pai celeste será arrancada. Deixai-os. São cegos conduzindo cegos! Ora, se um cego conduz outro cego, ambos acabarão caindo num buraco!"
Como dissemos, Jesus falava por parábolas para aquele povo simples. Pedro, ouvindo as palavras de Jesus, pediu-lhe que as explicasse. Ouça a resposta de Jesus: "Nem mesmo vós tendes inteligência? Não entendeis que tudo que entra pela boca vai para o ventre e daí para o fosso? Mas o que sai da boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro. Com efeito, é do coração que procedem más intenções, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações. São essas coisas que tornam o homem impuro, mas o comer sem lavar as mão não o torna impuro."
Uma passagem consentânea poderá ser encontrada em Lc. 11, v. 37 a 41. Um fariseu convida Jesus para almoçar em sua casa e pergunta a Jesus por que não lavou as mãos antes de sentar-se à mesa. Resposta de Jesus: "Agora vós, ó fariseus! Purificai o exterior do copo e do prato, e por dentro estais cheio de rapina e de perversidade. Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o interior? Antes, dai o que tendes em esmola e tudo ficará puro para vós."
Entendeu, leitor? É bom ler a Bíblia, de vez em quando. Eu entendi que assim como os judeus negligenciavam os mandamentos de Deus para apegarem-se à prática de regulamentos estabelecidos pelos homens, nós também fazemos isso.
Você, eu, nós que estamos lavando as mãos a toda hora (e não vamos parar de fazer isso), será que não estamos transformando esses atos de limpeza em casos de consciência? É mais fácil observar atos exteriores do que se transformar moralmente, não é não? Nós nos conformamos em sermos obedientes às leis exteriores, em lavar as mãos, evitar aglomeração, usar máscara etc. Mas isso basta?
A crença na eficácia dos sinais exteriores é nula se não impede que se cometam roubos, calúnias, espoliações, injúrias.
Pense nisso!
Continue limpinho exteriormente, isso é bom, continue cumprindo as regras para conter essa pandemia horripilante, mas antes de tudo mantenha a pureza de seu coração.
O autora é pedagoga, jornalista e advogada, professora doutora aposentada - Unesp.