Se você passou dos 40, sinto dizer, tu já tem mais passado do que futuro em sua caminhada por este mundo. A não ser que ultrapasse a expectativa de vida do brasileiro (72,8 para homens e 79,9 no caso das mulheres), como Mário de Andrade disse após fazer suas contas, você tem menos tempo para viver daqui pra frente do que viveu até agora.
Pensei nisso e fiz minhas contas por esses dias, quando me deparei com uma dessas situações que ligam o sinal de "viva como se não houvesse amanhã" na gente.
Não sou paulistano, sequer paulista. Assim como milhares de outros nortistas e nordestinos, desembarquei na Terra da Garoa para seguir minha caminhada. A cidade que não dorme e onde se come bolinho de chuva em dias de sol é um caldeirão cheio de temperos, de oportunidades e de invisíveis.
Quando era mais novo e ainda não fazia contas para ver quanto tempo tenho nessa brincadeira que é viver, conheci o metrô e passei a imaginá-lo como uma cápsula do tempo, onde você embarca no ponto A e desce no ponto B em questão de segundos/minutos do mesmo jeito que entrou. Mas, dias atrás, as coisas mudaram. Junto com a multidão mascarada que embarcou na mesma estação, entrou um homem empurrando uma cadeira de rodas com um garoto que tinha limitações físicas, com braços e pernas atrofiadas. Imediatamente, fiquei me perguntando qual seria o problema daquele garoto, aparentemente com dez anos, preso naquela cadeira. "Você gosta da muvuca, né, Guga?", brincou o homem, com o carinho de um bom pai. E o Guga, num golpe fatal, me olhou com aquele olhar de quem está vendo muito mais coisas e abriu o sorriso que destrancou meu dia. Preso numa cadeira de rodas, no meio de tantos invisíveis, Guga não precisou mexer nada além dos músculos do rosto para fazer toda diferença. A máscara do Homem Aranha não foi capaz de esconder a alegria, muito menos o poder transformador de um sorriso sincero daquele herói menino.
Entrei irritado com sei lá o que e, quando vi Guga com suas limitações físicas, a primeira coisa que me perguntei foi qual era o seu problema? Em poucos minutos, aquele garoto corrigiu minha dúvida e segui meu caminho me perguntando: Qual é o meu problema?
Com toda minha irritação por nada, o máximo que posso oferecer aos aventureiros do metrô paulistano é lembrar que a estação Paulista não fica na Av. Paulista, mas sim na Rua da Consolação. E a estação Consolação não fica na Rua da Consolação, mas sim na Av. Paulista. O que isso te ajuda? Provavelmente nada. Como disse o já citado Mário de Andrade, é o essencial que faz a vida valer a pena.
E sorrir, companheiro, isso sim é essencial. Obrigado, Guga.
O autor é jornalista, colabora com Opinião.