Mãe, dona de casa, cantora, produtora, empresária. Maria Rita assume - como a maioria das mulheres - múltiplos papéis. Por isso, sabe que precisa se manter forte. Por ela, pelos filhos (Antonio, 16 anos, e Alice, 7) e também pelos músicos e pela equipe técnica. Por todos eles - e pelo amor à profissão -, ela aceitou os convites para se apresentar fora de casa em tempos em que a pandemia do novo coronavírus ainda é uma ameaça.
"Foi uma experiência muito louca!", contou, por e-mail. Com projetos interrompidos - inclusive, de um novo álbum -, Maria Rita entendeu que não é tempo de ter tudo sob controle. "O que funcionou para mim foi lembrar que a minha frustração não iria me levar a nada. O que está acontecendo não é culpa minha."
Você começou fazendo lives na sua casa. Depois, se apresentou em drive-in e em estúdio. Como foi a decisão de dar esse passo a mais, de aceitar convites para se apresentar fora de casa?
Maria Rita - O principal fator, não vou mentir, foi a consideração para com aqueles que precisam trabalhar, inclusive eu. Não só por uma questão afetiva, emocional ou psicológica, mas também financeira. A vida não está ganha. Meu cachê nunca foi R$ 200 mil ou R$ 300 mil. Nunca chegou a esse patamar. Então, sei que a minha equipe precisa trabalhar. Eu também preciso. Precisava sinalizar para as pessoas próximas - meus filhos e minha equipe - que estou trabalhando, que não estou acomodada. Conversei com os músicos e com a equipe técnica para ver até onde eles estavam confortáveis em trabalhar. Estamos respeitando as normas, mas, de fato, foi uma decisão bem difícil.
Sentiu-se segura nessa volta ao trabalho?
Maria Rita - Não. Eu não me senti segura. E ainda não me sinto segura em avião, por exemplo. Nesse processo de ponderar o que vale e o que não vale, já neguei algumas apresentações fora do eixo Rio-São Paulo. Dependendo do lugar, a gente pega estradas perigosas, de noite, para evitar hotel. Tornou-se um quebra-cabeça não muito fácil. Isso abre uma margem para algumas exigências: não posso ficar doente, não posso parar em hospital por qualquer coisa. São cuidados exacerbados. Se antes eu tinha alguns, hoje tenho mais! Mas tenho encontrado pessoas muito compreensivas, muito profissionais, que respeitam minhas inseguranças e fazem com que haja um conforto para que o trabalho seja feito, porque a gente ama o que faz.
Como foi essa experiência de cantar para o público dentro dos carros?
Maria Rita - Foi uma experiência muito louca! Mas muito bacana, sabe por quê? Foi muito interessante ver a capacidade que a gente tem de se adaptar. No início, me senti como se estivesse no meu primeiro encontro (risos). Ninguém sabe muito o que falar, fica aquele silêncio constrangedor. Lá pela terceira ou quarta música, o público já tinha entendido a dinâmica e a gente começou a alimentar a energia um do outro. Lá pela quinta música, as pessoas estavam dançando dentro do carro. Ih, bicho! Lá pela décima música, a galera já estava com a janela aberta, braços para fora. Uns sentavam na janela e dançavam, batucavam no teto do carro. Foi muito maneiro! São modelos novos que eu acho que vão acabar fazendo parte da cultura da gente. A gente se adapta, cara! A gente não deixa a peteca cair, não! (risos)
Do lado pessoal, como você se comportou nesta quarentena? Como organizou sua rotina longe dos palcos?
Maria Rita - No começo, achei que ia voltar a ter aula de piano, que eu ia ler muito, sair desta quarentena muito culta, praticamente com um PH.D. nos assuntos de que eu gosto. Tenho uma filha de 7 anos de idade. E, sem o tempo gasto na escola, não só as aulas online, o dia a dia ficou tudo muito em cima de mim. Então, se resume a distração, aula online, almoço, jantar. Eu me voltei totalmente para ela, assim que entendi que a quarentena não ia ser de apenas 15 dias. Quando eu vi que a situação se prolongaria, falei: para! O bicho pegou. O meu grande foco é me manter saudável espiritualmente e mentalmente. Vou cuidar da minha saúde mental por ela (filha). Meu filho tem 16 anos, já entende muito melhor, mora com o pai em São Paulo. A gente ficou quatro meses sem se ver. Consegui ir a São Paulo de carro para buscá-lo. Ele ficou aqui comigo dez dias e o levei de volta assim que começaram as aulas. O que funcionou para mim foi lembrar que a minha frustração não iria me levar a nada. O que está acontecendo não é culpa minha. Não posso pirar, não posso me dar a esse luxo.