Foi ainda na infância, em Bauru, que a médica veterinária Maria Emília Bodini Santiago, de 57 anos, decidiu dedicar boa parte da sua vida aos animais selvagens. Depois de trabalhar por mais de três décadas no Zoológico da cidade, a profissional se voluntariou para cuidar das espécies vítimas do rompimento de uma barragem de Brumadinho, em 2019, e do incêndio do Pantanal, agora em 2020. Ela, inclusive, voltou do Mato Grosso há poucos dias.
Filha do bancário aposentado Elsio Santiago, de 88 anos, e da professora aposentada Maria Eliza Bodini Santiago, de 88, Maria Emília tem cinco irmãos, 14 sobrinhos e seis sobrinhos-netos.
A extrema dedicação ao ofício, inclusive, não permitiu que a profissional se casasse ou tivesse filhos. Em compensação, o amor incondicional dos seus nove cães e dois gatos a completa.
A seguir, a médica veterinária fala sobre a vida pessoal e profissional, que se fundamenta, basicamente, na paixão pelos animais. Tanto que muitos deles estão perpetuados em tatuagens em sua pele. Confira alguns trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - A sua paixão pelos animais surgiu ainda na infância?
Maria Emília Bodini Santiago - Eu nasci em Bauru e, na infância, adorava correr pelas ruas, jogar queimada etc. Além disso, sempre gostei de animais. Aos dois anos, já falava que seria veterinária de leões. Não faço ideia de onde tirei isso.
JC - Creio que a escolha da sua profissão não tenha sido um grande desafio para você...
Maria Emília - Eu não tive qualquer dúvida. Entrei em Medicina Veterinária na Unesp, em Jaboticabal, em 1983. Na época, a maioria dos estudantes do curso era formada por homens e filhos de fazendeiros. Por isso, todo mundo achava que trabalharia com cães e gatos, mas, desde o começo, queria me dedicar aos animais selvagens.
JC - Quando você entrou no Zoo de Bauru?
Maria Emília - Desde o primeiro ano da minha graduação, eu direcionei todos os meus esforços para os animais selvagens. Cheguei até a fazer um estágio no Zoo de Sorocaba. Em julho de 1987, me formei. Em setembro do mesmo ano, o Zoo de Bauru abriu concurso para médico veterinário. Lá, fui a única profissional do ramo por 24 anos consecutivos. Hoje, o local abriga dois veterinários.
JC - Fez a pós-graduação também na área?
Maria Emília - Eu defendi a minha dissertação de mestrado sobre leishmaniose em gambás na Unesp, em Araçatuba. Em 2010, concluí o doutorado na Unesp, mas em Jaboticabal, ainda na questão da imunologia dos animais selvagens.
JC - Você tem experiências fora do País?
Maria Emília - Logo que eu entrei no Zoo de Bauru, pedi um ano de afastamento não remunerado e fiz um treinamento no Zoo de Jersey, na Inglaterra. Em outra ocasião, fiquei seis meses no Nepal, onde estudei o manejo de áreas ameaçadas junto ao Smithsonian Institution.
JC - Ao longo de tantos anos de trabalho, você conseguiu estabelecer vínculos com cada animal do Zoo de Bauru?
Maria Emília - Alguns acham que não deve, mas é difícil evitar. Eu via o estado de saúde de todos diariamente. Dei nome a cada animal de lá.
JC - Algum episódio envolvendo o Zoo de Bauru chamou a sua atenção?
Maria Emília - Existe uma história bem antiga de um leão que foi criado por um homem. Ele, no entanto, percebeu que o animal havia crescido muito, ficou com medo e o deixou no Zoo. Passados quatro ou cinco anos, a mesma pessoa pulou a área de proteção e abraçou o bicho, que chegou até a chorar de alegria. Os animais têm sentimentos.
JC - Você já teve algum animal de estimação diferente dos tradicionais?
Maria Emília - Eu cuidei de filhotes em casa de tudo quanto é espécie, porque tem mãe lá no Zoo que se recusa a criá-los e os pequenos precisam deste aprendizado. Certa vez, peguei o chimpanzé Bile Júnior, que, posteriormente, passou a viver em um santuário de Sorocaba. Depois de algum tempo, fui visitá-lo e ele pulou em cima de mim de tanta alegria.
JC - Você se voluntariou para ajudar os animais em várias catástrofes, correto?
Maria Emília - Em 1992, pelo Zoo de Bauru, eu participei do resgate da fauna após o fechamento da Usina Três Irmãos, em Pereira Barreto, no Estado de São Paulo. No ano seguinte da minha aposentadoria, em 2019, viajei até Brumadinho, em Minas Gerais, onde houve o rompimento da barragem. Na ocasião, atuei junto à Associação Mata Ciliar, da qual sou voluntária desde a sua criação. Lá, não achei animais selvagens mortos, afinal, eles não viviam perto do rio, só usavam para matar a sede. Como a água estava em falta, nós criamos várias bacias de 60 litros cada e trabalhamos, basicamente, levando o líquido a estes locais. O serviço durou um mês. Até hoje, as empresas contratadas pela Vale executam tal procedimento.
JC - E o Pantanal?
Maria Emília - Nós, da Associação Mata Ciliar, viajamos para o Pantanal em 15 de setembro deste ano atendendo ao pedido de uma médica veterinária da Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso. Tomamos um susto, porque nunca tínhamos visto o Pantanal seco e, em apenas 200 alqueires, identificamos mais de 50 antas mortas. Ao longo de 15 dias, cuidamos dos bichos machucados. Além disso, distribuímos comida e água àqueles que sobreviveram.
JC - O que aprendeu ao acompanhar, de perto, todos estes desastres?
Maria Emília - Que eles têm de parar. Nós não podemos mais aceitar Brumadinho, Mariana, Pantanal, Amazônia etc. Já passou da hora de criarmos políticas públicas para preservar os recursos não renováveis.