Parafraseando o salmo 115 ["tem olhos mas não veem] que muitos de nós evangélicos costumamos usar, não para arrazoar sobre o poder de Deus e do amor, mas para ofender em geral a fé sincera, mas permeada por tradições diferentes de irmãos católicos, diria que na Terra há também os que assistem a documentários, mas não entendem, os ouvem falando de si, mas não se enxergam.
Me dispor a observar de fora da Igreja institucional me fez enxergar o quanto ensimesmada esta se tornou, a ponto de às vezes não mais cooperar como benefício à sociedade geral, mas de piorar-se cada vez mais a si mesma - expor-se ao ridículo e depois queixar-se de estar sendo ridicularizada. O Novo Testamento é repleto de cartas/epístolas escritas para repreender e corrigir falhas e condutas de desamor dentro da igreja e da parte desta em relação ao mundo. O apostólo Paulo (I Co 5.12) destaca destinarem-se essas exortações aos "de dentro" e não aos de fora (desconhecedores de muito, mas às vezes mais abundantes de amor que nós, os " de dentro" - aliás, muitos dos de fora nos precederão no Reino dos Céus. Em tempo, quem somos nós para corrigirmos os de fora, indaga o apóstolo), mas infelizmente nos púlpitos parece que o objetivo e jurisdição da Igreja é sobre os de fora e não sobre os de dentro. Aqui por exemplo (Coluna Batista, por pastor Hugo Evandro) já vi repúdio ao lazer dos outros (como o Carnaval, onde "pode" haver, mas não necessariamente todos cometerão excessos. A festividade é muito mais que isso. Há gente responsável e de "família" ali), a questões de foro íntimo como a sexualidade alheia...(aliás, a liberdade, mesmo a honesta nesta área parece despertar espécie de inveja do "pecado" alheio em muitos), só não vemos reflexão e autocrítica sobre a adesão ao flerte e culto ao armamentismo em nosso meio, ao culto e anseio pela oportunidade de revide violento contra o próximo, ao casamento com os poderes políticos. Ainda não vi o pastor Hugo Evandro (ou qualquer outro) alertar seus membros ou a comunidade deste jornal que o Jesus do presidente não é o Jesus dos Evangelhos, nem advertir que este (nem Trump, Lula, Dilma, Temer ou Gazetta) não são messias. Tampouco vi condenação ao ataque ao Portas dos Fundos ou se tocar no caso Flordelis, repúdio à manifestação homofóbica do ministro-pastor Milton Ribeiro, nem mesmo discorreu até hoje condenando alguma vez a tortura e o culto a períodos graves de ditadura de nossa história, algo crescente em nosso meio a olhos vistos. Com todo o respeito e consideração digo ao pastor que este não entendeu o documentário "O Dilema das redes" sobre o qual discorreu no 27/09: o grande dilema das redes e seus algorítimos é a sua imponderabilidade e a irresponsabilidade de seus agentes/criadores. Estes os criaram precipuamente para viabilizarem negócio$ e não para promover, como é mesmo, pensamentos ou tendências igualitárias, comunistas e bobagens do tipo. Aliás, ter afirmado que o nazi-fascismo buscaria constituição igualitária como o comunismo é de uma ignorância tremenda, aliás, algo muito alimentado pelos cliques nessas redes, a estupidez de que o nazifascismo seja de esquerda. Dentre tantas outras.
Vejo que o pastor, se o assistiu, não entendeu. Sim, não temos como antever ao que tal mecanismo (das redes sociais) pode nos levar nesse processo, tanto do ponto de vista positivo (de lucro para os operadores) quanto para o consumismo, à comparação pessoal, à estupidificação, inimizades ou até usos mais elaborados, como o eleitoral, como o foi nas campanhas de Trump e Bolsonaro - que estranhamente o pastor Hugo Evandro não mencionou, nem menciona. Aliás, gostaria de estar em engano, mas me espanta a coincidência de metáforas do presidente (notório manipulado digital e manipulador de redes) copiadas pelo pastor. Não percebe o pastor a origem de suas próprias ideais nas teorias conspiratórias circulantes nesse meio e por estes mecanismos: as ideias de que as Ciências, a Academia, a Tecnologia, a busca por atenção aos hipossuficientes e vulneráveis dos sistemas humanos seriam, como é mesmo, uma engenharia social para atingir o cristianismo, uma grande tolice muito forte no meio e profundamente reforçada pelas redes, assim como a ideia fóbica de que o reconhecimento da diversidade sexual humana e de composições familiares seria uma conspiração para bobagens quaisquer. Antes de pensar falar aos de fora convém autorreflexão sobre o que as redes incutiram ao meio religioso (ele também protagonista e simultaneamente vítima desses mecanismos) e sobretudo cuidar do olhar e do coração dos que se encontram "dentro".
Há muito preconceito e tolice dentro da Igreja que surgiram ou cresceram na batida das redes. Como cegos podem querer conduzir os outros a quem reputam como cegos? O pastor ainda não percebeu que, ao contrário das teorias das redes (tolices como "cristofobia"), o mundo nunca esteve tão aberto à mensagem do perdão e do Amor de Cristo como agora. Ele só está cansado de estultície.