Quando Glen Keane começou a trabalhar na Disney, havia apenas 50 pessoas envolvidas na criação de histórias animadas. Foram 15 anos até estrear "A Pequena Sereia", em 1989, e, para o animador, a fonte criativa da animação ainda reside nos olhos. "O conselho do meu mentor Ollie Johnston é que, na animação, é mais importante mostrar o que um personagem está sentindo, em vez do que ele está fazendo." Depois de "Ariel", Keane ainda estreou os clássicos "A Bela e A Fera", "Aladdin" e "Tarzan". "A chave da emoção está nos olhos."
Agora, é pelo rosto da pequena Fei Fei, de "A Caminho da Lua", que Keane vai narrar uma delicada história familiar, centrada no sonho de uma garotinha chinesa em conhecer Chang'e, uma deusa mítica e sua morada na Lua.
A animação da Netflix marca a estreia de Keane longe da Disney, mas o filme já havia percorrido uma trajetória em defesa da ciência, como a própria construtora de foguetes Fei Fei. Com o anúncio do novo filme, nos primeiros meses da pandemia, "A Caminho da Lua" se tornou alvo de comentários racistas e xenofóbicos a respeito da origem dos primeiros casos do Covid-19, na cidade chinesa de Wuhan. Na ocasião, a produtora do filme Peilin Chou rejeitou os comentários. "Ver essa família chinesa, com personagens que possuem anseios e desejos e esperanças é algo que pode ajudar nossa aproximação." E reconheceu que o filme pode inspirar as pessoas com esperança. "Somos todos apenas pessoas e estamos conectados da mesma maneira."
Essa diplomacia cultural começou ainda na turnê da equipe criativa pela China. No ano passado, Keane passou uma temporada visitando de perto a paisagem e os moradores das cidades antigas de Wuzhen e Nanxun. "Um dia, pedi para eles me falarem sobre a vida ali", contou Keane, em entrevista online ao Estadão. "Imaginei que iam falar sobre coisas da cultura, mas o assunto foi o tipo de noodle preferido de cada um, o macarrão chinês. Porque lá tem o noodle redondo, noodle preto. De repente, descobri que cada região tem o seu tipo predileto."
Como evento presente na família chinesa, as refeições juntas se tornaram base para os primeiros conflitos vividos por Fei Fei. Desde criança, a garota sonha com as lendas de um mundo acima de nossas cabeças, localizado no lado escuro da Lua, e governado pela mítica Chang'e, no filme uma mistura de rainha de humor instável e estrela da música pop para os outros habitantes.