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Mais irregularidades

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril
| Tempo de leitura: 2 min

Quando da bombástica notícia publicada no JC sobre o desvio mensal e periódico de receita da Cohab para o bolso de seu presidente, demorei um pouco para aceitá-la como verdadeira em se tratando da pessoa suspeita da fraude descender de um casal de políticos que desfrutaram de renome incensurável.

Fui amigo de Edison Bastos Gasparini e de sua esposa, d. Darcy, na época de solteiro. Depois, como delegado de polícia, empreendi uma diligência em sua casa, no J. Santana, que culminou na sua prisão acusado de ser comunista, isso numa triste época em que escancarava a arbitrariedade policial, prendendo pessoas sem mandado de prisão e sem estado de flagrância. Antes de encaminhá-lo para a delegacia de polícia, d. Darcy filtrou um café para servi-lo ao marido e aos policiais.

Nossas relações de respeito permitiam essa gentileza sem misturá-la com a função que exercia. Anos depois, como promotor de Justiça atuando nesta comarca de Bauru, fui escolhido pelos colegas promotores (naquela época éramos em 5) para ir à prefeitura cumprimentar em nome da classe o novo prefeito eleito da cidade, Edison Bastos Gasparini. Como sempre se comportou, recebeu-me com refinada educação, mas tinha a aparência cansada, de que lhe faltavam forças para o trabalho em consequência de uma cirurgia na cabeça, lugar onde alojava um tumor que o levou à morte.

Imaginava que seus descendentes, bem criados, herdariam as virtudes morais dos pais, mas sofri um amargo desapontamento com a notícia divulgada na mídia sobre o desvio mensal do seguro das casas populares. Estarreci, da mesma forma, com a continuidade da apropriação de valores iguais por mais de 10 anos sem que os organismos de controle das contas anuais da Cohab fossem capazes de localizar a trapaça contábil escondida nos papéis da prestação de contas. Como foi fácil burlar por anos a fio a fiscalização dos atos da Cohab.

O abuso na Cohab não terminou nisso. Foram encontradas na agenda da secretária do presidente da empresa municipal, por ela confirmadas, anotações de ordem do presidente para aquisição de passagens aéreas de Bauru para Brasília, a favor de 2 vereadores com mandatos atuais, um ex-vereador e um ex-assessor parlamentar. Embora neste momento as investigações não apuraram quem bancou as viagens, aquele que apostar que foi o dinheiro do presidente, certamente perderá a aposta. As justificativas dos favorecidos sobre o motivo das viagens não convencem, eis que é nítida a ausência do interesse coletivo nas afirmações à imprensa.

Uma delas, a do ex-assessor parlamentar, chega a ser hilária ao dizer que foi a Brasília para cuidar de assunto do Município. Essa missão exclui o poder do prefeito de representar o município pessoalmente ou por seus secretários por ordem escrita. É lamentável que as patifarias não acabaram. Elas andam bem escondidas.

O autor é professor universitário, aposentado.

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