Eu era apenas uma criança quando o mundo me mostrou a sua cara de bicho. Foi uma porrada! Sentávamos à beira mar, todas as manhãs, eu e a Leninha, minha amiguinha sardenta e de tranças, e, com areia molhada, construíamos um mundo encantado. Das nossas pequenas mãos, erguiam-se castelos, torres e muralhas, cavávamos túneis e estradas sem fim. Era assim, sonhando, que dávamos forma ao cenário da nossa imaginação. Nele gravetos, pedrinhas, folhas e flores viravam príncipes, princesas, bichos rastejantes, outros voadores, tudo conforme queria e podia a nossa inventividade.
Foi assim brincando com a magia da vida, que conheci a brutalidade da morte. O tio da Leninha chegou inesperadamente, deu um abraço silencioso na minha amiguinha e, depois, a levou pelas mãos para longe de mim. Logo em seguida, chegou meu primo Rojão, já moleque crescido, e soltou a pedrada: "A mãe da Leninha morreu!" Foi assim que a estúpida voz noticiou o fato. Como assim? A mãe da Leninha? Não podia ser! A mãe da Leninha, a minha companheira de tantas histórias encantadas? O eco nervoso da frase, feito bigorna, passou a martelar-me os ouvidos: morreu, morreu, morreu... A morte até então não tinha entrado na minha vida, era só uma palavra. Agora não, era muito mais, era um soco no estômago, uma lâmina fria que ameaçava cortar fundo. Morreu... Morreu... Morreu... Lembro me perfeitamente de que, em vez de sentir a dor dela, senti a minha dor. Então era isso, se a mãe da Leninha morreu, a minha mãe poderia morrer também. E o meu pai? A minha vó e o meu vô? Todas as pessoas que eu amava começaram a morrer, naquele instante, diante de mim. Era uma verdade cruel que, sem pedir licença, invadia o meu mundo do faz de conta. Desmoronavam, assim, de uma só vez, todos os meus castelos. Eu percebia naquele momento que a vida também era feita de areia. Qualquer onda ou vento de sopro forte poderiam acabar com tudo.
Na infância de cada um de nós sempre haverá esse dia de exagerada luz, dia de terrível clarividência. A partir de então, nunca mais seremos os mesmos, avisados que fomos de que tudo o que temos é transitório, nada resiste a mão pesada do tempo. Justamente pela certeza da nossa finitude e, enquanto a onda não vem, o melhor é continuar a brincadeira, construindo os castelos possíveis. Ainda que de areia sejam.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e de ficção.