Novembro, mês de Zumbi, Dia da Consciência Negra e tantas outras datas que são importantes para os negros. Época de aumentar e fortalecer a luta contra o racismo. Período rico em discussões.
Eu sou branca. Praticamente 100% branca. O que eu tenho a ver com isso? Em tese não sou vítima de racismo. Ao menos não de forma direta. Poderia até concordar que no Brasil não existe racismo e que vivemos em uma democracia racial. Mas, não dá.
A democracia racial é um mito e talvez a vertente mais cruel do nosso racismo.
De fato, muitos acreditam que não existe discriminação e alguns ainda dizem que até tem amigos pretos. Que existe igualdade e oportunidade para todos nessa imensa democracia. Nosso racismo é tão cruel, tão arraigado, tão incrustado em nosso dia a dia, que muitos se chocam quando percebem que praticam atitudes racistas. É muito comum me dizerem: 'Eu nunca havia pensado nisso'. Claro que não. Nosso racismo aparentemente é cordial. Ele mata, corta, fere, mas nem todos veem, nem todos sentem e o mais fácil é não falar sobre essas bobagens todas.
Reafirmo, sou branca e não sou vítima de racismo, mas sou casada com um negro e tenho uma filha negra. Sei bem o que é isso.
Lembro-me da minha época de namoro de como as pessoas olhavam de forma curiosa para o casal "diferente". Comentários do tipo: 'O que será que ela viu nele'. Me acostumei com os olhares e comentários e sempre que possível rebati cada um deles. Se o essencial é invisível aos olhos, ele está muito além da cor da pele.
Quando minha filha nasceu, recebeu o nome de Dandara, uma guerreira negra e enquanto ela crescia eu soube o que era ser mãe de uma pretinha. Novos olhares curiosos, muitas perguntas e muita discriminação.
Você pega pela mão sua filha e vai com ela em um parquinho onde a maioria das crianças é branca. Inevitável não sentir o desconforto alheio. Perguntas do tipo: é sua? você adotou?". "Você sabe se a família dela era de gente honesta?". "Não tem medo?". Ou aquele comentário ainda mais estranho quando falava quem era o pai: "Ah, por isso é escurinha..."
Não discutir o racismo por não ser negro é um erro. Não denunciar, não combater, não reagir é uma forma de perpetuar esse crime. Sou branca, não sou vítima, mas me recuso a ser autora. A trincheira é pela igualdade e nela que estou!
Encerro com Bob Marley: "Enquanto imperar a filosofia de que há uma raça inferior e outra superior, o mundo estará permanentemente em guerra."
TC 19-11-15, Viva Zumbi!