O velho professor convoca seu filho mais velho para ajudá-lo nas aulas online, formado em Letras com aulas até de Latim, o decano aprendiz não sabe ligar o notebook e as aulas, não lhe ensinaram isso nas aulas de datilografia!
O filho, um herói, em tempos de Watchmen e Coringa, ajuda-o, desde março, quando começou a pandemia do pandemônio! Sim, há demônios por toda parte - na política, nos preços dos produtos, nas máscaras, nas fábricas, nas demissões, nas fraudes dos auxílios emergenciais, no Congresso, na Câmara, no Senado! Procura-se um exorcista urgente!
Paga -se bem pelo fim do mal!
O professor, que está mais para Clint Eastwood que Rodrigo Santoro, lembra o tempo dos livros e lousas e gizes que foram substituídos por outras diretrizes! Quando preparava suas aulas em fichas, decorava-as exaustivamente e tinha medo de errá-las na hora em que era jogado na cova dos gatos e gatas, seus alunos, havia também raros leões e leoas!
A aula que o mestre mais apreciava era a de Análise Sintática, termos essenciais: sujeito e predicado seduziam e encantavam-no sempre! Achava que essa dupla, tão importante na oração, era como Batman e Robin, Romeu e Julieta, Tom e Vinícius, era mais que dinâmica, era linda, era coesa, era o amor inabalável, era o elo mais amar bem antes de Emicida e seu Amar Elo!
Quando ligava seu aparelho "Três em Um" (disco, fita e rádio), o "profe" gostava de ouvir Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Marisa Monte, Luiz Melodia, Arnaldo Antunes e degustando as letras, ele tirava de letras a Análise Sintática! Era um sujeito indeterminado em Caetano, era um objeto direto em Gil, era um aposto em Chico, era um predicativo em Marisa, era uma aula, esses ícones musicais devem ter estudado Gramática e com Gino Crês ou Napoleão Mendes de Almeida, não era possível!
Dia após dia, ele levava as letras que tirou dos cantores, compositores para aula, raros alunos, raras alunas conheciam as letras e o professor perguntava-se por que escolheu Letras, por que não fez Filosofia e ficou a falar para todos: "Só sei que nada sei"?
Ou antes de preparar essas tão sonhadas aulas, por que não se olhou no espelho e "cerebrou": "Conhece -te a ti mesmo?"
No entanto, sempre havia em alguma sala um aluno, uma aluna que conheciam as letras e as músicas, diziam que seu pai ou sua mãe ou seu tio ou sua tia ou seu avô ou sua avó, alguém gostava de MPB, que essas pessoas colocavam, às vezes, contra a unanimidade de que falou Nélson Rodrigues, as músicas nas festas, nos almoços de domingo, e que eles e elas, jovens por si sós, sós por si, sabiam que um dia, quando velhos e velhas, teriam que ouvir tais melodias, pois não ficaria bem um sexagenário ou uma septuagenária dançar funk!
A aula de sujeito era a preferida do professor, à medida que elencava os tipos de sujeitos, gostava de compará-los com alguém da política, da vida, do cinema, da música, mas poucos lhe prestavam atenção!
Chegaram os tempos obscuros, quiçá com cura da pandemia, o professor teve que usar o aparelho complicado digital do seu filho mais velho. Houve dias em que o professor se sentiu uma estrela da televisão, imitou um dos seus ídolos na comunicação, Sílvio Santos, outros narrou futebol com Gramática como Osmar Santos, mais um ídolo, outras de inveja e admiração, imitou outros professores e professoras!
As aulas online eram suas flores do mal! Amava-as com saudades de seus alunos e de suas alunas, o bate-papo , mais batia que papava!
Tornou-se um sujeito indeterminado! Às vezes, um objeto direto e indireto, muitas vezes , nas aulas a distância perdeu seus apostos, ficou intransitivo no "Fique em casa" sem ligação! No entanto, em uma sexta-feira, o professor sequestrou o notebook de seu mais velho rebento, ligou o aparelho, tremia, seu indicador indicava teclas, seu polegar era mais digital do que nunca, seu anular era mais precioso que "Smeagol", seu dedo médio era mais médio que o ensino, seu mindinho se tornara máximo!
Lembrou-se da senha, já que iria falar de "Códigos e Linguagens", colocou as letras, seu nome, seu título de "prof", teclou e rezou, sua aula agendada apareceu, apertava e orava, conseguiu, entrou na sala, mas ela estava vazia, uma pessoa presente, que era ele mesmo, nem o bate- papo o quis, seu pincel vermelho "sangrou", o azul "azulou para o sertão com o verbo 'crackar' de Oswald de Andrade e o preto decretou luto oficial e digital : "Aqui jaz uma aula!"
Ensimesmado e triste, o professor sintonizou uma rádio que só tocava música brasileira, ouviu, entendendo sem entender "Epitáfio", dos Titãs , pensou em seus sujeitos que o abandonaram e sentiu-se um sujeito Inexistente!