Cultura

Garota sincera

Alessandra Medina
| Tempo de leitura: 4 min

No horário marcado para esta entrevista feita por videochamada, Bruna Marquezine surge toda sorridente. A atriz mais cobiçada pela imprensa de celebridades ainda está se adaptando ao novo corte de cabelo, que agora está natural, ou seja, cacheado. A mudança na aparência não foi a única na vida de Bruna em 2020. Depois de 17 anos e 14 novelas, a atriz optou por não renovar o contrato com a Globo e ir em buscas de novas experiências. A primeira delas já tem data de lançamento: em 2021, ela estará no elenco da série "Maldivas", da Netflix. Ao lado de Manu Gavassi, sua amiga na vida real, interpretará Liz, uma goiana que vai para o Rio com o intuito de reencontrar a mãe. Em uma conversa bastante sincera, a atriz de 25 anos fala sobre a gangorra emocional que viveu ao longo do ano.

E finalmente chega 2021. Como foi seu 2020?

Bruna Marquezine - Acho que foi um ano muito difícil para todo mundo, né? Para mim, foi emocionalmente instável. Passava metade do meu dia tentando meditar... Uma gangorra muito louca! Pensava: "Hoje vou me alimentar bem", e terminava o dia comendo um pote de Nutella". Ou "hoje vou criar maneiras de ajudar as ONGs que apoio", e acabava pedindo socorro para a terapeuta. Além da Netflix, outras possibilidades de trabalho surgiram e me fizeram muito bem. Então, ao mesmo tempo que foi um ano muito difícil, eu seria hipócrita se dissesse que foi um ano ruim...

Você faz terapia há tempo?

Bruna Marquezine - Procurei uma terapeuta quando tive depressão, há uns três, quatro anos. O problema é que, como não tenho rotina e, na minha profissão, é tudo de uma hora para outra, tenho uma dificuldade enorme de me priorizar. As questões emocionais deixo de lado, para quando a vida ficar um pouco menos agitada. Desapareço umas semanas, depois marco uma consulta. Volto pedindo arrego.

Há uma questão em que preste mais atenção?

Bruna Marquezine - Várias. Muitas não vou me sentir à vontade para dividir. Cresci diante dos olhos do público, e isso me fez criar uma consciência muito grande sobre o olhar do outro. Além da minha observação, que é extremamente crítica. Eu sou a minha pior hater. Comecei a trabalhar numa época na qual me ensinaram que o certo era construir uma imagem perfeita, onde o artista não tinha problemas. Não tinha problema de família, de saúde, não sofria. Acho que nem ao banheiro ia. Colocavam o artista num pedestal. Minha geração foi desconstruindo isso, porque acredita que a força está na vulnerabilidade. A gente se ajuda muito mais não com exemplo de perfeição, mas com exemplo real. Aliás, nem com exemplo! Eu detesto quando falam que sou exemplo. Não sou modelo para ninguém. Sou só mais uma mulher de 25 anos, trilhando  o seu caminho, aprendendo diariamente como lidar com tudo isso. Eu acho que ajudo muito mais quando falo sobre depressão do que quando estou de bonita no meu Instagram.

Passar a quarentena solteira foi ruim?

Bruna Marquezine - Estou bem com a minha solteirice. Quase não consigo me ver hoje com alguém. É claro que amanhã isso pode mudar. Até porque, quando eu me encanto, por mais que não namore, fico parada ali. Não tenho necessidade de ir para outra pessoa para ver como é.

Passou os últimos meses sozinha, então?

Bruna Marquezine - Sim! Parabenizo quem conseguiu começar um relacionamento na pandemia. As minhas amigas perguntavam se eu não ia encontrar tal pessoa. Se fosse um cara que já tivesse ficado, talvez. Não ia ligar e falar: "Oi, quero muito te ver, você pode fazer um teste e, depois do exame, ficar em casa até sair o resultado?". Tenho taquicardia só de pensar em ter alguém morando na minha casa. É muito libertador falar isso.

Foi fácil a transição da Globo para a Netflix?

Bruna Marquezine - Foi maravilhoso! Eu desejava sair de um contrato de exclusividade há muito tempo. Queria muito ter liberdade para ser dona das minhas escolhas. Sou infinitamente grata. Passei mais tempo nos estúdios da Globo do que dentro da minha própria casa. Mas chegou um momento em que, graças ao meu trabalho, poderia parar uns meses para estudar, fazer uma faculdade, um curso de atuação ou direção. Tenho oportunidade de trabalhar fora do país, trabalhar com moda, que é uma das grandes paixões, trabalhar com fotografia, trabalhar como produtora.

Você abraçou movimentos importantes, como o feminismo e o antirracismo

Bruna Marquezine - Há alguns anos, comecei a escutar sobre o feminismo e entendi algumas situações que vivo diariamente só por ser mulher. Percebi que eu era vítima diariamente da cultura machista. A mesma coisa com o antirracismo. É lamentável como pessoas que não sentem esse mal na pele acabam entendendo que essa "doença" que mata e destrói vidas é um problema do outro.

Tem consciência de seus privilégios?

Bruna Marquezine - Sim, tenho muita consciência dos meus privilégios. O que não quer dizer que tudo sempre foi muito fácil, mas, enfim, talvez por isso, sinto a necessidade de usar minha voz para lutar contra tudo que está errado. Acredito que quanto mais privilégio você tem, maior sua responsabilidade. Se já é difícil para quem tem privilégios, imagina para quem não tem. Mas não nasci nessa bolha de privilégios, nasci em Duque de Caxias. Saí da Baixada com 9 anos, meus pais têm uma história e um background completamente diferentes do meu. Então, cresci com o olhar voltado para o outro.

 

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