Tribuna do Leitor

J.W. e seu amigo Jorge

Meire Dangió
| Tempo de leitura: 2 min

Todos os dias era isso, abrir o portão para o Jorge entrar! Fizesse sol ou chuva, lá estava ele com seu olhar maroto, suplicando que lhe abrissem o portão. E quem mais poderia fazê-lo? Essa incumbência recaía sobre J. W., ou melhor, José Wagner - Wagner com W, por favor! Assim é a amizade, coisa estranha, por vezes mágica, pois traz consigo a cumplicidade e a certeza de que o amigo sempre fará a coisa certa. E assim era a amizade entre José Wagner e Jorge. Quiçá nem todos compreendam esse sentimento ou até mesmo nem tenham a oportunidade de vivenciá-lo, mas uma verdadeira amizade torna-se a porta para a felicidade e nos leva ao mundo da responsabilidade cativante.

Talvez J. W. não fosse o único amigo de Jorge, talvez fosse apenas o único refúgio, mas com certeza essa amizade, muda de palavras e repleta de confiança, era o que havia de melhor no cotidiano de Jorge. É claro que não era apenas J. W. que fazia bem ao Jorge, nessa via de mão dupla, J. W. também sentia-se bem ao realizar sua ação rotineira de abrir o portão para Jorge.

Todos os dias, por vários anos, sempre do mesmo jeito: Jorge emitia seu som e lá ia J. W. cumprir sua amigável missão. Certo dia, estava eu na casa de José Wagner, quando alguém disse: - Zé, o Jorge está aí! Vá abrir o portão para ele. E eu, com minha curiosidade à flor da pele e com a visão antecipada da figura humana, na certeza de que conhecia a todos os amigos de J. W., corri até o portão para ver quem era o tal do Jorge. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com um cão grande, de pelagem marrom e de olhos suplicantes. J. W. saiu de sua casa, atravessou a rua com Jorge em direção à casa do vizinho e abriu o portão para que o cachorro pudesse regressar ao seu lar.

Fiquei pensando o quanto esse rito traz em si a clareza de que somos importantes para a vida de alguém. Infelizmente, hoje em dia J. W. não abre mais o portão para Jorge. Não porque não queira, mas porque está abrindo portas lá no céu! A mim, amigo e companheiro de vida de J. W., resta a função de tentar me aproximar de Jorge e desejar que ele permita que eu lhe abra o portão. (Homenagem ao meu companheiro Cláudio Dangió. Em memória de José W. Dangió)

 

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