Articulistas

Cheiro de memórias

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

As estações do ano em muito se assemelham aos nossos sentidos sensoriais. Acordar com um sol em estado de Van Gogh. Verão um céu em abuso de belezas. A sociologia do inverno. De um lado o frio opressor e inóspito contra moradores de rua. Do outro, cachecóis bebem o charme dos cappuccinos em Campos do Jordão. Ouvir do outono um senhor deitar zelo à calçada, por varrer, varrer folhas que, obedientes à convocatória do vento, esparramam geometrias amareladas ao chão. Primavera requisita sotaque de aroma. Flores e frutas anelam para a nossa memória olfativa.

Infância tem cheiro de travesseiro com talco, algodão-doce de saída de escola, picolé de rua, paçoca de quermesse, algazarra na Kombi, caldo de cana de feira, sanduíche das Americanas, bolo de cenoura da vó, de desenhos riscados com graveto à sombra do abacateiro. Cheiro de salsa, cebolinha, alface, manga lembrando a horta do vô. Meninice cheira a balas de coco embrulhadas em papel caju terroso, negociadas com os pais para consumo após almoço, a leite esquentado na simplicidade rebaixada de fogão antigo, à expectativa de dedos que se alternavam em conquistas e derrotas das figurinhas de bafo, do bate-bate do batuque nos baldes do quintal a curiosidades desnecessárias, como observar roupas estendidas no varal e ficar à cata de lembranças escorridas.

Alegrias exatas bordadas de brigadeiros, betes e búrica. Sorriso de festa vestia a casa. Matinê! Filmes dos Trapalhões cheiravam à atração. O Cine Vila Rica inquietava a tranquilidade dos domingos de missa e macarrão. Pais e avós sossegavam em preguiçosas poltronas. Refrigerantes mastigavam pipoca.

Na adolescência, uma brincadeira bem frugal nos unia. Entre pera, uva, maçã, os mais afoitos deitavam apetite na salada mista. Cheiro de boca quente sem malícia, gritando por vontades amostras. Nas festinhas dançantes, ímpar motivo para um par. Uma vassoura nos igualava na permuta da companhia. Enquanto a música romântica oportunizava carinho mudo, mãos vacilantes invadiam a rota do corpo no alvo do beijo. Se éramos caça ou caçador, pouco importava. A alegria dançante completava o encontro. As famílias, numa convicção magra, cobravam quilos de respeito dos filhos com os professores. A escola decorava o pátio com hinos e alunos. Alunos decoravam matérias.

Às vezes a vida nos apresenta um cheiro fétido. Uma bala perdida. Um tiro cuspido. A costumeira falta de comprometimento dos políticos com as causas sociais. A fuligem crespa do menor de rua, analfabeto, parado próximo ao ponto da placa da praça. O desespero do ano-sangue, que se armou em coágulo.

Tantos cheiros, tantos... Cheiro de fé cheirando à devoção poente. Hora da Ave-Maria. De alecrim com milagre. Cheiro de vela apagada, da luz fria do sobrenatural.

O autor é professor, autor de artigos didáticos, ficcionais e antologias de Língua Portuguesa.

 

Comentários

Comentários